Nos Trilhos do Pavão Misterioso — o Cordel como Locomotiva da Sabedoria Popular

Nos Trilhos do Pavão Misterioso — o Cordel como Locomotiva da Sabedoria Popular

Entre verdes ondulados que a chuva amacia — capim-gordura até o joelho, cheiro fresco de terra molhada — ergue-se o casarão caiado, janelas em azul-de-anil e, colada ao flanco, uma capelinha que cintila como rendilhada lua de taipa. A estrada, barro espesso como mel de engenho, guarda sulcos de carroças, tratores sem fôlego e a moto exausta que range, sonhando com distâncias que talvez nunca verá. No alpendre baixo, vizinhos ruminam o tempo, mastigando lentamente o horizonte.

Estamos no chão onde nasceu o poeta que deu asas ao Pavão Misterioso — terra de sol agreste, pedra quente e mandacaru em sentinela, onde a cantoria lateja nas feiras e o aboio conversa com o vento. O cheiro de facheiro florido mistura-se ao silvo das rabecas: passado e agora sussurram juntos. Num repente, sinto-me içado pelo engenho alado do romance — pistões de fantasia vencem o óbvio e cortam nuvens de algodão sobre açudes estirados como espelhos. Ao lado, Peer Gynt acena, perdido em seu próprio espiral. Entre nós, o compasso invisível do forró costura realidade e delírio.

Mas é o cordel que põe a locomotiva da sabedoria popular para ranger nos trilhos do imaginário. Folhetos de xilogravura, vendidos a tostão na praça, sopram vento nas brasas da memória coletiva: cada sextilha é vagão carregado de mitos, conselhos, pilhérias e alertas contra a astúcia dos poderosos. Quem folheia um cordel desencadeia engrenagens de aprendizagem: a leitura vira farol, a rima vira trilho, e a cantiga vira trilha pela qual o saber passeia, de porta em porta, como um trem de lenha aceso na madrugada dos sertões. Ali, o povo ensina ao povo: que a sorte se fabrica, que a justiça se chama, que o humor é remédio de graça.

Nas ribanceiras encharcadas, um bando de meninos e meninas pisa com cuidado: sandálias de borracha mergulham na lama, mochilas pesam de cadernos e marmitas. Vestem réplicas brilhantes de novelas, mas carregam dignidade altiva. Seus risos faiscam, despedaçando o silêncio dos pastos; são pavões por eclodir. Ora miram o céu de Creusa, ora se encantam pela princesa gelada. Seja qual for a rota, levarão nas dobras da lembrança a pluma turquesa do pavão que primeiro ousou voar — e, talvez, um folheto de cordel dobrado no bolso, mapa secreto para jornadas maiores.

Quando o sino miúdo da capela chama para o Ângelus, a tarde se afoga num laranja derretido. O casarão parece barco ancorado num mar de capim — promessa de histórias que o chão guarda para quem sabe ouvir. Entre o grito rouco de um galo tardio e o tilintar distante das espadas de luz dos meninos, o verso do poeta germina: semente de voo impossível, pronta a colorir sonhos que ousam atravessar a lama. E o cordel, locomotiva teimosa, segue puxando vagões de esperança pelos trilhos do coração do povo, apitando alto no crepúsculo para lembrar que a palavra é asa, ferro, fogo e caminho.

Por Palmarí H. de Lucena