No Meio da Vida

No Meio da Vida

A notícia da morte de Marcos Pires me fez voltar a uma cena de sua mãe, Dona Creuza, entre idosos. É uma lembrança antiga, quase sem data, dessas que a memória conserva menos pelos detalhes do que pela atmosfera. Vejo as pessoas chegando, conversando, rindo, encontrando outras pessoas. Havia música, movimento e aquela expectativa simples de quem vai a um encontro sabendo que ali será visto, ouvido e reconhecido.

Dona Creuza estava no meio deles. Não parecia estar diante de um grupo que precisava apenas de assistência, mas diante de pessoas que ainda tinham muito a viver. Queria os idosos juntos, participando, conversando, dançando, ouvindo música, retomando uma convivência que a idade, as circunstâncias ou simplesmente o costume podiam ter interrompido. O que me ficou daquela cena foi menos o que acontecia do que a maneira como ela estava ali: entre as pessoas, fazendo companhia à vida.

Foi pensando nessa imagem que a morte de Marcos me alcançou. Há pessoas que, quando morrem, parecem levar consigo uma parte da paisagem em que viveram. Marcos era uma dessas pessoas. Sua presença não estava apenas nos livros, nas crônicas ou nas histórias que escreveu, mas sobretudo na circulação das pessoas ao seu redor, nas conversas que prolongava, nos amigos que reunia, na capacidade de transformar um encontro em lembrança.

Marcos tinha esse talento raro de fazer a vida continuar depois que o acontecimento terminava. Uma conversa podia virar história; uma história podia virar crônica; uma crônica podia devolver a alguém, anos depois, uma pessoa que já não estava mais ali. Ele parecia compreender que a memória não é um arquivo imóvel, mas uma forma de manter as pessoas em circulação.

Talvez por isso a lembrança de Dona Creuza tenha voltado justamente agora. Não porque mãe e filho fossem iguais, mas porque havia entre eles uma mesma inclinação para o encontro. Ela reunia idosos e lhes devolvia um espaço de convivência. Marcos reunia amigos, histórias, personagens e lembranças, como quem também se recusava a deixar a vida se dispersar sem testemunhas. O que nela aparecia como presença, nele muitas vezes aparecia como narrativa.

Penso também no carnaval, esse território em que Marcos parecia especialmente à vontade. A Baratona não era apenas uma festa; era uma maneira de pôr a cidade em movimento, de juntar gente, de criar uma memória coletiva que só existe porque muitas pessoas estiveram juntas ao mesmo tempo. Nesse sentido, o carnaval de Marcos e a cena de Dona Creuza entre os idosos pertencem, para mim, a uma mesma família de gestos: aproximar pessoas e impedir que a vida aconteça em silêncio.

Agora que Marcos morreu, essas lembranças mudam de lugar. O que antes parecia simplesmente uma característica de sua personalidade ganha outra dimensão. A conversa que ele prolongava, a história que recuperava, a amizade que cultivava, tudo isso passa a fazer parte daquele território delicado em que os mortos continuam presentes através dos vivos. É assim que a memória trabalha: não devolve ninguém, mas impede que a ausência seja absoluta.

Por isso não quero lembrar Marcos apenas pela biografia, pelos livros, pelo direito, pelo carnaval ou pelas muitas histórias que contou. Prefiro começar pelas pessoas que estavam ao redor dele. É ali que sua figura se torna mais nítida. Marcos precisava da presença dos outros para que a palavra encontrasse seu destino, e os outros, de algum modo, pareciam precisar de Marcos para que suas próprias histórias ganhassem uma segunda vida.

Hoje, diante da notícia de sua morte, penso que talvez seja essa a melhor herança que ele deixa. Não uma obra encerrada, mas uma roda que continua. Há pessoas que escrevem para registrar o mundo; Marcos parecia escrever para mantê-lo em companhia. E talvez seja por isso que, ao lembrar dele, eu não consiga separá-lo das pessoas, das conversas, do riso e desse movimento de aproximação que também reconheço em sua mãe.

A cena de Dona Creuza entre os idosos volta, então, como uma espécie de prenúncio involuntário. Ela estava no meio das pessoas porque sabia que ninguém deveria ser empurrado para fora da vida. Marcos fez algo semelhante à sua maneira: recolheu pessoas e histórias para que não desaparecessem completamente no tempo. Hoje ele próprio entrou nesse território da memória, onde já não podemos encontrá-lo como antes, mas ainda podemos encontrá-lo nas histórias que deixou em nós.

Talvez seja esse o sentido mais profundo do título que me vem agora. Marcos Pires está no meio da vida que continua: nas histórias que ainda serão contadas, nas conversas que começarão com alguma lembrança dele, nas pessoas que, ao se encontrarem, inevitavelmente terão alguma história para contar. A morte interrompe a presença, mas não interrompe necessariamente a convivência. Enquanto houver quem se lembre, Marcos continuará entre nós.

Palmarí H. de Lucena