Ali, onde a cidade de João Pessoa se inclina para o Atlântico como quem faz uma prece antiga, existe a Praça de Iemanjá. Não é apenas concreto, bancos e horizonte — é um ponto de memória. Um lugar onde o sal encontra a fé e onde o vento parece repetir nomes muito mais velhos que o próprio Brasil.
Há quem passe apressado e veja apenas uma estátua diante do mar. Mas quem chega com silêncio percebe outra coisa: ali mora uma travessia.
Iemanjá não nasceu na praia de Cabo Branco. Seu nome veio de longe, atravessando séculos e oceanos. Veio com os iorubás, povo da região que hoje reconhecemos como parte da Nigéria, além do Benim e de outras terras onde os deuses não eram metáforas, mas presenças cotidianas.
Entre os iorubás, ela era Yemojá — mãe dos peixes, senhora da fertilidade, ventre das águas profundas. Não era folclore: era mundo. Era cosmovisão. Era a certeza de que a natureza não estava separada do sagrado.
Então vieram os navios.
E com eles, a violência de arrancar corpos e tentar arrancar também os nomes, os cantos, os deuses. Mas certas crenças sabem nadar. Sobrevivem escondidas, misturadas, reinventadas. Chegaram ao Brasil nos porões e renasceram nos terreiros, nos batuques, nas rezas baixas, no sincretismo que foi também estratégia de sobrevivência.
Assim, Yemojá virou Iemanjá.
E permaneceu rainha.
Nas religiões de matriz africana — no Candomblé, na Umbanda e em tantas expressões da fé afro-brasileira — ela segue sendo mãe, proteção e caminho. O mar continua sendo altar.
Talvez por isso sua praça esteja diante do oceano. Não haveria outro lugar possível. O mar não é cenário: é continuidade. Cada onda parece trazer de volta um idioma antigo. Cada oferenda lançada à água carrega mais do que flores — leva saudade, pedido, promessa e resistência.
Na noite de festa, velas acesas desenham pequenas constelações sobre a areia. Vestidos brancos caminham devagar. Há perfume de alfazema, som de atabaques e olhos úmidos de quem reza sem precisar explicar.
Ali, João Pessoa conversa com Lagos sem precisar de avião.
Cabo Branco fala com a Nigéria pela gramática invisível da ancestralidade.
Porque a história oficial gosta de contar descobertas; a fé prefere lembrar permanências.
A Praça de Iemanjá não é apenas homenagem. É prova.
Prova de que nem toda travessia termina em perda. Algumas terminam em permanência. Algumas viram praça. Algumas viram mar. Algumas continuam chamando filhos pelo nome, mesmo depois de quatro séculos.
E quando o vento sopra mais forte no fim da tarde, há quem diga que é só brisa do litoral.
Mas quem conhece, sabe:
é mãe respondendo.
Texto e foto por Palmarí H. de Lucena