Natal em Brasília

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Natal em Brasília

Naquela noite silenciosa, enquanto o contribuinte pobre tentava equilibrar o orçamento doméstico como quem monta um presépio com peças faltando, a árvore de Natal do Congresso cintilava com outro tipo de ornamento. Nada de bolas frágeis ou luzes econômicas. Ali pendiam verbas, emendas, auxílios e reajustes — todos muito bem embrulhados em papel constitucional, com laço de normalidade institucional e etiqueta de urgência.

Sob a árvore, os presentes se acumulavam com generosidade escandinava e fiscalização tropical. Havia pacotes volumosos destinados à “atividade parlamentar intensa”, expressão que, no dicionário natalino de Brasília, significa viajar bastante, discursar pouco e votar quando o clima permitir. Em caixas menores — só no tamanho, jamais no valor — vinham os agrados logísticos: combustível, moradia, assessores em quantidade bíblica. Tudo indispensável para quem carrega o peso do país, ainda que raramente esteja presente para senti-lo.

O detalhe pitoresco é que muitos dos contemplados sequer compareceram à festa legislativa. Deputados ausentes, fantasmas regimentais, receberam seus presentes com pontualidade suíça. Não estavam no plenário, não estavam nas comissões, não estavam no debate — mas estavam na folha. O Natal institucional aboliu a exigência da presença: basta existir no cadastro e manter o CPF em dia.

Mais ao fundo, protegidos do olhar ingênuo do eleitor, repousavam os pacotes coletivos, endereçados aos partidos. Caixas-fortes embrulhadas em papel de presente: fundos partidários, fundos eleitorais, repasses automáticos e correções generosas. Não exigiam coerência programática, fidelidade ideológica ou desempenho mínimo. Bastava ter sigla, CNPJ e a habilidade ancestral de sobreviver a qualquer estação política.

Ao lado deles, os presentes especiais, cuidadosamente separados, destinados aos caciques partidários. Não vinham com nome próprio, mas com títulos respeitáveis: “liderança”, “articulação”, “governabilidade”. Eram silenciosos, quase invisíveis, mas decisivos. Quem controla o estoque raramente aparece na vitrine — e quando aparece, chama isso de responsabilidade institucional.

Se Hugo Motta é o Papai Noel do Congresso, as renas não puxam trenó — puxam quórum, orçamento e silêncio. Não usam guizos, mas cargos; não seguem estrelas, mas planilhas. Há renas dóceis, que correm em formação; renas de aluguel, sempre prontas a trocar o arreio; renas fantasmas, especialistas em não aparecer; e renas-caciques, que não puxam — decidem quando o trenó anda e quando estaciona à sombra.

O saco de presentes é amplo e democrático na distribuição, embora rigorosamente seletivo na cobrança. Cabe tudo: emendas, fundos, cargos, recesso estendido e o milagre da ubiquidade remunerada. Tudo com selo técnico, carimbo de governabilidade e discurso grave sobre responsabilidade fiscal — sempre pronunciado depois da entrega.

Do lado de fora, o contribuinte — esse figurante persistente do auto natalino — também deixou algo aos pés da árvore. Um pacote invisível, embrulhado em impostos, tarifas e inflação, com a etiqueta singela: “Pago em silêncio”. Não pediu recibo. Aprendeu que, por aqui, Natal é entrega sem devolução e gratidão é item opcional.

Para completar a decoração, sugere-se que, ao lado da árvore, seja colocado um pote oficial de tinta preta. Não para pichar nada — para cobrir a realidade. Com uma demão rápida, somem as ausências, evaporam-se as renas, o Papai Noel institucional ganha ar de estadista e o presépio vira política pública. O contribuinte paga a tinta, o pincel e o solvente. E ainda agradece, porque no Brasil a censura mais eficiente não é a que proíbe: é a que pinta por cima e chama de ornamento.

E assim se encerra o auto de Natal brasiliense, essa comédia de costumes em que ninguém decora texto, mas todos sabem a deixa. Se houver vaia, será tratada como aplauso técnico. Se houver silêncio, como concordância madura. No ano seguinte, tudo se repete — com novos embrulhos, a mesma árvore e o mesmo presépio administrativo.

Moral da história:
No Polo Norte, as renas voam por magia.
Em Brasília, por método.

Por Palmarí H. de Lucena