Nada novo sob o sol: a política brasileira e seus velhos vícios

Nada novo sob o sol: a política brasileira e seus velhos vícios

A corrupção na política brasileira costuma ser debatida como se fosse atributo exclusivo de determinados partidos. A cada escândalo, renova-se a tentação de eleger culpados por legenda e absolver aliados por afinidade ideológica. Esse modo de encarar o problema é confortável, mas insuficiente. Ele personaliza o que é estrutural e transforma sistema em conspiração isolada.

A própria tradição bíblica oferece uma chave interpretativa precisa. No Eclesiastes, lê-se: “O que foi tornará a ser; o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol.” O versículo não expressa conformismo, mas observação histórica: padrões se repetem quando as condições que os produzem não são alteradas. Na política, isso significa que trocar governantes sem reformar mecanismos equivale a substituir atores mantendo o roteiro.

O Partido dos Trabalhadores marcou presença nos dois maiores escândalos de corrupção do país — Mensalão e Petrolão —, ambos amplamente documentados e julgados. As investigações mostraram estruturas organizadas de desvio, uso sistemático de estatais e redes financeiras especializadas. O impacto institucional foi profundo e a confiança pública, duramente abalada.

Em paralelo, o chamado Centrão construiu um modelo próprio de poder. Não se organiza por ideologia, mas por pragmatismo. A lógica é transacional: apoio político em troca de controle sobre verbas, cargos e órgãos públicos. Não há escândalos unificados, mas uma sucessão constante de denúncias regionais que raramente se transformam em narrativa nacional. O efeito prático é o mesmo: desgaste institucional sem responsabilização proporcional.

O episódio do “orçamento secreto” ilustrou com nitidez esse padrão. A distribuição opaca de recursos públicos, sem critérios técnicos claros e com baixa transparência, ampliou o poder de círculos parlamentares e enfraqueceu os instrumentos de controle. O problema não foi a existência de emendas, mas a forma como se institucionalizou a ausência de rastreabilidade.

No campo da direita partidária, a situação não foge ao padrão geral. O PL e outras siglas conservadoras figuram em investigações relacionadas a compras públicas, contratos emergenciais, obras e nomeações políticas. A diferença não está no teor das acusações, mas na dispersão dos casos, que dificulta a percepção de conjunto e alimenta a falsa ideia de assimetria moral entre campos ideológicos.

É um erro insistir na busca por um “lado honesto”. A corrupção não respeita espectro político. Ela prospera onde o poder é concentrado, a fiscalização é frágil e a transparência é seletiva. Em ambientes assim, qualquer partido tende a repetir os mesmos desvios, ainda que sob discursos diferentes.

A alternância de poder, por si só, não basta. Democracias maduras não se sustentam pela troca de siglas, mas pelo fortalecimento de instituições. Quando tribunais funcionam, órgãos de controle são independentes e o jornalismo é livre, governos cometem menos abusos. Quando esses pilares enfraquecem, as mesmas práticas reaparecem com novos protagonistas.

A insistência em personificar o problema é uma forma de alívio psicológico coletivo. Aponta-se um inimigo, absolvem-se os próximos e segue-se adiante como se o sistema fosse neutro. Mas não é. Ele é permissivo.

No Brasil, os escândalos não são exceção. São sintomas. E tratar sintomas sem enfrentar a doença é apenas adiar o diagnóstico.

No fim, a pergunta não é quem é mais corrupto.
É porque continuamos permitindo que a corrupção sobreviva a cada troca de governo.

Por Palmarí H. de Lucena