“A guerra é sempre nova para os mortos.” — Hannah Arendt
O filme All Quiet on the Western Front, inspirado no romance de Erich Maria Remarque, expõe com brutal clareza o esvaziamento da vida humana diante da guerra. Ali, não há heroísmo, mas corpos dilacerados, trincheiras encharcadas e jovens transformados em peças descartáveis. O patriotismo, incutido em salas de aula e discursos inflamados, dissolve-se em sangue e silêncio, enquanto generais distantes decidem quem deve morrer por cálculo ou vaidade.
Essa crítica permanece atual. Em Gaza, mulheres e crianças são reduzidas a números em relatórios militares. O ataque do Hamas, condenável em sua violência, não apaga a assimetria da resposta israelense, que ameaça a sobrevivência de um povo inteiro. Na Ucrânia, jovens soldados são enviados ao front como herdeiros involuntários da lógica de 1914: defender territórios à custa de uma geração inteira.
Mas se o século XX revelou o pesadelo dos cogumelos atômicos — a lembrança de que cidades inteiras podem desaparecer em segundos —, o século XXI acrescenta outra sombra: a guerra das armas invisíveis. Drones cruzam os céus como predadores sem bandeira, satélites vigiam em tempo real, e algoritmos decidem, com a frieza de cálculos matemáticos, quem deve viver ou morrer. Armas modernas são controladas à distância pelos mesmos joysticks usados em jogos eletrônicos, transformando o ato de matar em simulação lúdica, onde vidas humanas se apagam com o simples movimento de um dedo.
Essa nova paisagem bélica não é apenas tecnológica, é também política. A corrida armamentista, travestida de defesa nacional, tornou-se espetáculo público, bandeira erguida para intimidar nações e subjugar povos. A proclamação da letalidade como demonstração de força desvela um paradoxo cruel: quanto mais se anuncia a capacidade de matar, mais distante se torna a possibilidade de paz.
A guerra, afinal, não é feita apenas de batalhas. É também feita de silêncios que atravessam gerações, de ruínas que ultrapassam fronteiras, de lideranças que confundem segurança com destruição. All Quiet on the Western Front não é apenas um relato do passado: é um aviso sobre o presente. Gaza e Ucrânia mostram que ainda não aprendemos a lição. Se não formos capazes de interromper esse ciclo, a humanidade arrisca repetir, em escala nuclear e tecnológica, a tragédia já conhecida.
Por Palmarí H. de Lucena