Na Montanha Mágica do Brasil

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Na Montanha Mágica do Brasil

Se Lodovico Settembrini, o humanista civilizador de A Montanha Mágica, fosse hoje transportado para o Brasil, talvez reconhecesse com certa familiaridade o ambiente que o cerca — não por seus conflitos episódicos ou ruídos políticos, mas pela sensação difusa de uma sociedade que se habituou à convalescença e passou a tratá-la como estado permanente, como se a exceção pudesse, sem maiores consequências, ocupar o lugar do método e da norma.

Settembrini sempre desconfiou dos atalhos. Para ele, a civilização não era um estado emocional nem um gesto redentor, mas um processo lento, sustentado por educação, linguagem e disciplina moral. Ao observar o Brasil contemporâneo, veria um país que proclama a democracia com entusiasmo, mas a pratica com impaciência; que invoca a legalidade com frequência, mas convive com naturalidade com sua suspensão episódica; que prefere a solução improvisada ao trabalho continuado do planejamento, como se o esforço persistente fosse uma forma menor de inteligência.

Nesse cenário, chamaria atenção para o abuso sistemático da exceção. Regimes de urgência, flexibilizações fiscais, expedientes jurídicos provisórios e soluções transitórias acumulam-se até perder o caráter emergencial e assumir, silenciosamente, a condição de método. Settembrini advertiria, com a gravidade serena do iluminista, que toda exceção reiterada corrói o sentido da norma — não por ruptura declarada, mas por desgaste, por hábito, por fadiga moral. A barbárie moderna, sabia ele, raramente se anuncia aos gritos; prefere instalar-se pela erosão lenta da razão.

A polarização política brasileira lhe pareceria menos um confronto de ideias do que um embate de certezas morais, no qual a dúvida é tratada como fraqueza e a reflexão como hesitação suspeita. Settembrini nunca foi neutro, mas tampouco foi dogmático. Sabia que o fanatismo não pertence a um campo específico: ele emerge sempre que a convicção dispensa o argumento e a política abdica da linguagem para se converter em ritual de confirmação identitária.

Mas talvez fosse na degradação da palavra pública que o humanista percebesse o sintoma mais profundo dessa montanha mágica tropical. Termos como “liberdade”, “povo”, “democracia” e “justiça” circulam no Brasil com intensidade, mas sem densidade, repetidos até perder o peso semântico que lhes confere autoridade moral. Para Settembrini, que via na linguagem o instrumento maior da civilização, essa inflação verbal não seria um problema estético, mas institucional: quando as palavras deixam de significar com precisão, as instituições passam a operar no terreno da ambiguidade — e a ambiguidade prolongada é terreno fértil para o arbítrio.

Ele não buscaria salvadores, pois sempre desconfiou deles. Tampouco celebraria rupturas catárticas, que prometem regeneração rápida ao custo da continuidade civilizatória. Defenderia algo menos sedutor e mais exigente: educação cívica paciente, contenção do impulso messiânico, respeito aos ritos imperfeitos da democracia representativa e recusa do improviso elevado à condição de virtude nacional. O atraso, lembraria, não reside na escassez material, mas na indulgência cultural com a irresponsabilidade travestida de engenhosidade.

Ao final, talvez concluísse — com a ironia contida que Thomas Mann reservava a seus personagens mais lúcidos — que o Brasil não está condenado, apenas habituou-se a viver em estado de espera, como um paciente que já não deseja a cura, mas se acomoda à rotina do sanatório. Esqueceu, nesse intervalo prolongado, que a liberdade não é um direito que se proclama, mas uma prática que se sustenta diariamente, com método, autocontrole e fidelidade à palavra.

Porque, para Settembrini, ontem como hoje, civilização não é exaltação coletiva: é disciplina moral sustentada pela razão.

Por Palmarí H. de Lucena

Nota do autor
Lodovico Settembrini, personagem de A Montanha Mágica, de Thomas Mann, é aqui evocado como referência ao humanismo racional, à centralidade da linguagem e ao respeito ao método civilizatório. O texto não propõe paralelos literais, mas utiliza a tradição ensaística para refletir sobre hábitos públicos e escolhas culturais que influenciam a vida democrática.1