Há manifestações culturais que atravessam o tempo; outras atravessam a própria cidade. Ao completar quatro décadas, as Muriçocas do Miramar deixaram de ser apenas um bloco de pré-carnaval para se consolidarem como uma verdadeira marca simbólica de João Pessoa.
O livro “40 Anos das Muriçocas do Miramar”, publicado pela tradicional A União, cumpre papel que vai além da celebração. Ao assumir a edição da obra, A União — instituição histórica da comunicação paraibana — legitima o bloco como patrimônio cultural digno de registro oficial. Não se trata apenas de memória festiva; trata-se de documentação institucional de um fenômeno urbano.
A narrativa percorre as origens quase domésticas do bloco no bairro do Miramar, quando irreverência e crítica social desciam a Avenida Epitácio Pessoa com espírito espontâneo. Ao longo dos anos, a repetição anual transformou-se em ritual cívico. A cidade passou a se reconhecer naquele cortejo que mistura humor, música e ocupação democrática do espaço público.
Marcas urbanas não nascem de campanhas publicitárias. Nascem da constância e do afeto coletivo. As Muriçocas consolidaram-se por adesão popular, geração após geração. Tornaram-se referência regional, atraindo visitantes e projetando João Pessoa no circuito dos grandes pré-carnavais do Nordeste.
Nesse processo, a música desempenhou papel decisivo. O hino composto por Mestre Fuba funciona como assinatura sonora da cidade. Quando entoado, ele transcende o caráter carnavalesco: transforma-se em expressão de pertencimento. Poucos blocos possuem um “logotipo musical” tão reconhecível e afetivo.
A obra também sugere reflexão sobre o amadurecimento do evento. Crescimento implica desafios: logística, sustentabilidade, segurança, diálogo com moradores e comerciantes. A consolidação como marca urbana exige responsabilidade compatível com sua dimensão simbólica e econômica.
Ao publicar o livro, A União não apenas registra quarenta anos de história; ajuda a fixar no imaginário coletivo a ideia de que as Muriçocas são parte estruturante da identidade pessoense. O que antes era brincadeira de bairro tornou-se ativo cultural da cidade — um patrimônio que combina irreverência, crítica leve e celebração democrática.
Se cidades contemporâneas investem em “branding” para se tornarem reconhecíveis, João Pessoa possui uma marca construída organicamente, ao som de um hino popular e sob a luz dos trios elétricos. As Muriçocas são cartão-postal em movimento, memória em desfile, cidade cantando a si mesma.
E enquanto houver rua, música e gente disposta a ocupar o espaço público com alegria, essa marca continuará viva — não como produto, mas como identidade.
Por Palmarí H. de Lucena