A Europa costuma tratar Munique como um erro histórico superado — um desvio reconhecido, convertido em consenso moral. Mas a história, como mostrou o cineasta Marcel Ophüls, não desaparece quando é compreendida: ela retorna como tentação. A tentação de ceder hoje para evitar o conflito amanhã; de chamar de realismo aquilo que, em essência, é renúncia organizada.
Em Tristeza e Piedade, Ophüls não reconstitui batalhas nem celebra heróis. Ele observa comportamentos. Examina como sociedades democráticas aprendem a conviver com a injustiça quando ela se apresenta como preço da normalidade. A ocupação alemã na França surge menos como imposição externa do que como um campo de decisões cotidianas, feitas sob medo, fadiga e cálculo. O filme desmonta o mito reconfortante da resistência unânime e expõe uma zona cinzenta onde a acomodação se disfarça de prudência.
Esse olhar ajuda a iluminar o debate contemporâneo sobre a Ucrânia. À medida que a guerra se prolonga, cresce a pressão para que Kiev aceite concessões — quase sempre territoriais — em nome de uma paz possível. O argumento reaparece com roupagem moderna: evitar escaladas, conter custos econômicos, estabilizar o continente. O problema não está na busca da paz, mas no tipo de paz que se propõe.
A experiência histórica sugere que concessões exigidas sob coerção raramente encerram conflitos. Elas tendem a reorganizar o conflito seguinte. Em 1938, a entrega da Tchecoslováquia foi apresentada como sacrifício necessário para preservar a Europa. O que se preservou foi apenas a ilusão de tranquilidade. O agressor ganhou tempo; os demais ganharam uma paz provisória, paga com a soberania alheia.
Transportada para o presente, essa lógica impõe uma pergunta incômoda: que Europa emerge se a integridade territorial da Ucrânia se torna moeda de negociação? Ao aceitar que fronteiras podem ser revistas pela força, o continente enfraquece o princípio que sustentou sua reconstrução no pós-guerra. Não se trata apenas de um caso específico, mas do precedente que ele inaugura.
Há também um efeito menos visível, mas decisivo, que Tristeza e Piedade ajuda a compreender: as concessões externas corroem as democracias por dentro. Quando líderes explicam renúncias como inevitáveis, ensinam que valores são flexíveis diante da pressão. A política passa a operar por exceções permanentes, e a confiança pública se desgasta. Nesse ambiente, discursos autoritários prosperam, prometendo segurança sem princípios e ordem sem limites.
Para os países do Leste Europeu, o sinal seria inequívoco. Se a Ucrânia pode ser sacrificada em nome da estabilidade, garantias tornam-se condicionais e alianças, provisórias. A paz construída sobre concessões assimétricas não elimina o medo; apenas o redistribui.
Ophüls nunca confundiu lucidez com cinismo. Seus filmes recusam a ingenuidade, mas também rejeitam a ideia de que a paz possa ser comprada à custa da dignidade de terceiros. Munique, em sua leitura, não foi apenas um erro estratégico: foi uma falha moral coletiva, a decisão de aceitar o inaceitável para preservar a própria tranquilidade.
Ao discutir o futuro da Ucrânia, a Europa decide se age como herdeira dessa memória ou como sua negadora silenciosa. Ceder pode parecer razoável no curto prazo. A história sugere, porém, que concessões feitas sob medo tendem a reaparecer como exigências ampliadas. Munique, afinal, não é apenas passado: é um aviso recorrente.
Por Palmarí H. de Lucena