A torcida viking da Noruega demonstra que o esporte pode ultrapassar os limites da competição e tornar-se uma poderosa expressão da identidade nacional. Nas arquibancadas, nas ruas e até em atividades desenvolvidas em jardins de infância, homens, mulheres e crianças celebram um legado que remonta aos antigos navegadores escandinavos. Capacetes estilizados, escudos, bandeiras e cantos inspirados nas sagas nórdicas transformam cada partida em um exercício de memória coletiva. Mais do que uma encenação folclórica, trata-se da reafirmação de uma herança cultural que fortalece o sentimento de pertencimento e projeta ao mundo a imagem de um povo consciente de suas origens.
Esse exemplo desperta uma pergunta inevitável: por que o Brasil, uma das nações de maior diversidade cultural do planeta, ainda revela tão pouco de sua própria identidade quando se apresenta ao mundo?
A formação brasileira jamais resultou de uma única matriz civilizatória. Ela nasceu do encontro — frequentemente marcado por violência, resistência e reinvenção — entre centenas de povos indígenas, africanos trazidos à força, europeus de diferentes origens, asiáticos e tantos outros grupos que aqui construíram uma sociedade singular. A identidade brasileira não é homogênea; ela é, por natureza, plural. Sua força reside justamente na capacidade de reunir tradições, linguagens, crenças e visões de mundo diversas em uma experiência histórica comum.
Essa pluralidade, entretanto, raramente ocupa o centro das manifestações populares em torno da seleção brasileira. O patriotismo costuma limitar-se ao uso da bandeira nacional e das cores verde e amarela em camisas, bandeiras e acessórios. Embora esses símbolos pertençam à coletividade, sua recorrente associação às disputas políticas das últimas décadas acabou restringindo seu significado para parte da sociedade. Em consequência, emblemas concebidos para representar todos os brasileiros passaram, em determinados contextos, a ser percebidos como marcas de alinhamentos partidários.
Mas a bandeira, o hino nacional e as cores da República não pertencem a partidos, governos ou movimentos. Pertencem à nação. Sua história antecede qualquer conjuntura política e sua vocação é representar aquilo que permanece quando as disputas passam. Recuperar esse sentido significa restituir aos símbolos nacionais sua natureza republicana e seu caráter verdadeiramente coletivo.
Se a torcida brasileira buscasse inspiração na própria história, o espetáculo oferecido ao mundo seria incomparável. As arquibancadas poderiam transformar-se em um grande mosaico da cultura brasileira: cocares inspirados nos povos originários, grafismos indígenas, maracás, tambores, bordados, rendas, manifestações populares e referências às inúmeras tradições que atravessam o território nacional. Não como fantasia ou exotismo, mas como reconhecimento daqueles que edificaram a identidade do país.
A reflexão de Ailton Krenak devolve protagonismo aos povos originários e recorda que o Brasil abriga uma multiplicidade de culturas e modos de existir irredutível a qualquer definição única de identidade nacional. A diversidade não fragmenta o país; ela constitui sua própria essência. Reconhecê-la significa reconciliar o Brasil com a parte mais antiga e profunda de sua história.
Em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda oferece outra chave de leitura ao analisar as dificuldades históricas de consolidação de uma cultura autenticamente republicana. Sua interpretação ajuda a compreender por que símbolos destinados a representar toda a coletividade acabam, por vezes, absorvidos pelas paixões políticas do presente. Essa apropriação, contudo, não altera sua natureza. Os símbolos nacionais continuam pertencendo igualmente a todos os brasileiros.
A maior lição da torcida norueguesa não está em seus capacetes ou em sua estética viking, mas na consciência de que uma nação se fortalece quando transforma sua história em patrimônio vivo. Um povo que conhece suas origens não precisa inventar símbolos; encontra-os na própria memória.
O Brasil dispõe de uma herança cultural infinitamente mais ampla. Dos grafismos indígenas às matrizes africanas, das tradições amazônicas às culturas sertanejas, caiçaras, pantaneiras, gaúchas, quilombolas e ribeirinhas, das festas populares à extraordinária diversidade artística e religiosa do país, existe um patrimônio capaz de despertar admiração em qualquer parte do mundo. Sua força, porém, depende do reconhecimento de que essa riqueza pertence igualmente a todos os brasileiros.
Imaginar arquibancadas tomadas por cocares, grafismos indígenas, tambores, maracás, cantos tradicionais e manifestações populares não significa transformar a cultura em espetáculo folclórico. Significa afirmar, diante do mundo, que a grandeza do Brasil reside na diversidade de suas raízes. Seria uma forma de patriotismo fundada no conhecimento, na memória e no respeito.
Enquanto a Noruega celebra os vikings como expressão de sua formação histórica, o Brasil ainda precisa reconhecer que sua maior epopeia foi escrita por muitos povos. Nossa identidade não nasce da uniformidade, mas da convivência entre diferenças; não da exclusão, mas do encontro; não da apropriação de símbolos por interesses passageiros, mas da preservação de um patrimônio comum.
A identidade de uma nação não se mede apenas por seus símbolos, mas pela capacidade de atribuir-lhes significado. Uma bandeira vale pelo povo que representa; um hino, pela memória que preserva; uma camisa, pela história que carrega. Quando esses símbolos deixam de dividir para voltar a reunir, cumprem sua verdadeira função republicana.
O Brasil não precisa importar mitologias nem fabricar tradições. Possui uma das mais ricas heranças culturais do mundo, forjada por povos que, apesar das adversidades, construíram uma civilização marcada pela diversidade. É nessa pluralidade que reside a singularidade brasileira e é nela que se encontra a forma mais elevada de patriotismo.
No dia em que nossas arquibancadas refletirem essa consciência, o mundo verá muito mais do que uma torcida apaixonada. Verá um povo reconciliado com sua história, respeitoso de suas raízes e orgulhoso de sua diversidade. Verá que o verde e o amarelo, por si sós, jamais bastaram para definir o Brasil. A verdadeira identidade brasileira começa muito antes das cores da bandeira e permanecerá muito depois de qualquer disputa política. Ela vive na memória de seus povos, na riqueza de suas culturas e na permanente capacidade de transformar diferenças em pertencimento. Esse será o dia em que o Brasil compreenderá que sua maior vitória não se conquista em campo, mas na consciência de quem realmente é.
Palmarí H. de Lucena