O Liceu, o Ponto de Cem Réis e o Pavilhão do Chá formavam o Triângulo das Bermudas da minha juventude. Todas as tardes eu desaparecia dentro dele. Não havia naufrágio, apenas o lento sumiço de um estudante que, de tempos em tempos, deixava de existir para a escola. A jornada começava invariavelmente diante do relógio do Liceu. Dali em diante, já não respondia por mim.
Descia a ladeira em direção à Lagoa. Para mim, não era apenas um espelho d’água, mas um território encantado, cercado de sombras, cores e possibilidades. Comprava um cigarro ou um gole de alguma bebida no fiteiro, conforme permitia o dinheiro que sobrava. Enchia os pulmões devagar, como quem praticasse um exercício de respiração aprendido muito antes de saber o que era yoga. Então suspirava, quase liturgicamente: Ah, l’ennui.
A palavra vinha de um livro de que eu pouco aprendera: Cours de Langue et de Civilisation Française, de G. Mauger. Era curioso. Eu mal conseguia conjugar os verbos franceses, mas havia encontrado naquela única palavra a definição exata da minha adolescência: um tédio inquieto, feito de desejo, contradição e expectativa. Estava prestes a ser reprovado justamente em Francês.
O Cassino, povoado por políticos, senhores influentes e homens que pareciam nascer de paletó, permanecia uma terra incógnita. Passava por ele sem reduzir o passo. Meu destino era um banco próximo aos bambuzais, discreto o bastante para abrigar um fugitivo das aulas.
Ali eu lia. Às vezes beijava a namorada do momento — le roman du jour. Na maior parte do tempo, apenas sonhava. Os bambus eram meu claustro particular, onde Thomas Mann ocupava o lugar dos professores. Revivia os embates entre Settembrini e Naphta, os dois polos morais de A Montanha Mágica. De um lado, o humanista iluminista, defensor da razão e da liberdade; do outro, o ex-jesuíta austero, dogmático, guardião da disciplina e da censura. Sem perceber o exagero da analogia, transformava minha professora de Francês na reencarnação de Naphta.
Mais tarde seguia pela Rua Padre Meira. Atrás da bomba de gasolina, na esquina da Diogo Velho, praticava meu pequeno ritual de delinquência. Girava a manivela do barril de óleo e deixava o combustível escapar livremente. Um desperdício inútil, um gesto sem ideologia — apenas a rebeldia sem causa que James Dean ensinara à minha geração.
Do outro lado da rua morava um cão gigantesco. Le grand chien. Bastava uma pedrinha de cascalho para despertar sua fúria. Latia com convicção; eu respondia com insolência. Nenhum dos dois corria perigo. Entre nós havia grades suficientes para garantir a coragem de ambos.
Subia então em direção ao Ponto de Cem Réis com o coração acelerado, como se cada esquina preparasse uma estreia.
Ao alcançar a Praça 1817, começava a representação. Entrava em cena como um ator do Actors Studio, convencido de que a vida dependia daquela interpretação. Era uma improvável combinação de James Dean e de mim mesmo. Os cravos desapareciam. A insegurança também.
Ela já estava na janela do casarão.
Ao perceber minha passagem, surgia em seu rosto um sorriso difícil de definir. Não era felicidade. Tampouco ironia. Era um sorriso melancólico, desses que parecem conhecer de antemão a despedida. As sobrancelhas desenhavam dois arcos perfeitos; ela se agitava discretamente atrás da janela, como se hesitasse entre permanecer e desaparecer.
Eu passava.
Nunca trocamos uma palavra. Nunca houve um aceno de despedida. Também nunca senti falta deles. Bastava a aparição. Algumas pessoas entram na nossa memória como personagens; outras permanecem apenas como uma visão.
O percurso terminava na Praça João Pessoa. Sentava-me sempre no mesmo banco, como um mergulhador que retorna lentamente à superfície, evitando a descompressão brusca.
Do outro lado da rua erguia-se o prédio de A União. Eu observava o movimento dos jornalistas entrando e saindo às pressas, quase todos fumando. O cheiro metálico das linotipos misturava-se ao da tinta fresca e invadia a calçada. Falavam de um furo, de política, de futebol, de mulheres ou do chope na Casa dos Frios. Um deles fumava cachimbo com uma calma que parecia desafiar o relógio. Era o dono invisível da esquina.
Ah, l’ennui.
Depois vinha o sorvete no Pavilhão do Chá. Fim da viagem. Terra firme.
Fui reprovado em Francês naquele ano. Na prova oral, não consegui lembrar o último verso de Chanson d’Automne, de Paul Verlaine.
Pouco depois, a moça bonita na janela do casarão desapareceu. Nunca mais a vi. Nunca mais esqueci.
… Et je m’en vais
Au vent mauvais
Qui m’emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.
Palmarí H. de Lucena
Original publicada em 23.08.2009 na A União e no meu livro Nem Aqui, Nem Ali, Nem Acolá, Editora Bagaço 2011