No México, o surrealismo nunca foi apenas uma corrente artística. Parecia também uma forma de organizar a realidade. André Breton descreveu o país como “o mais surrealista do mundo”, mas bastava caminhar algumas horas pela Cidade do México para compreender o que queria dizer. A morte vendia doces nas feiras populares; esqueletos sorriam nos murais; procissões religiosas atravessavam avenidas congestionadas; revoluções terminavam administradas por burocracias permanentes. Tudo coexistia sem escândalo aparente. O país parecia construído sobre uma negociação contínua entre ruína e permanência.
Cidade do México, 19 de setembro de 1985, 07h19 da manhã.
A terra moveu-se com violência suficiente para desmontar não apenas edifícios, mas também a sensação de estabilidade sobre a qual o sistema político mexicano se sustentara durante décadas. Em menos de um minuto, hospitais desapareceram, ministérios ruíram, bairros inteiros afundaram em concreto pulverizado. Dez mil mortos. Trinta mil feridos. Energia, água e comunicações interrompidas ao mesmo tempo.
O governo permaneceu imóvel.
Durante quase quarenta horas, o país viveu sob um blecaute informativo imposto pelo Partido Revolucionário Institucional, o PRI, no poder desde 1929. Mario Vargas Llosa definiria aquele sistema como “a ditadura perfeita”. Havia eleições, Congresso, imprensa e oposição — tudo cuidadosamente administrado dentro de limites previsíveis.
O terremoto abriu rachaduras naquele edifício político e expôs algo que já existia havia décadas: a distância entre o Estado e a população comum.
O ar da cidade cheirava a concreto esmagado, fumaça, gás vazando e morte. Enquanto o Estado hesitava, porém, a população começava a mover-se espontaneamente entre os escombros.
A Colonia Los Ángeles, assim como a Colonia Obrera, Doctores e outros bairros populares construídos sobre o antigo leito lacustre do Vale do México, sofreu destruição severa. O solo argiloso amplificara violentamente as ondas sísmicas. Edifícios inclinavam-se uns sobre os outros em equilíbrio improvável; oficinas têxteis e habitações populares desabavam como estruturas frágeis.
Ruas estreitas transformaram-se em corredores de poeira, concreto fragmentado e fios elétricos rompidos. Moradores removiam destroços com barras de ferro, pás e as próprias mãos. Altares improvisados para Nossa Senhora de Guadalupe surgiam nas esquinas ao lado de listas manuscritas de desaparecidos.
O México oficial permanecia paralisado; o México real começava a emergir.
Vi freiras organizando cozinhas improvisadas, estudantes removendo destroços com as mãos, donas de casa coordenando listas de sobreviventes e crianças distribuindo água para desconhecidos. Não havia música. Apenas silêncio, interrompido por sirenes, vozes e concreto sendo removido.
As costureiras da Colonia Obrera simbolizavam aquela transformação.
Mais de 1.200 oficinas de costura desabaram na cidade. Mulheres trabalhavam em jornadas clandestinas, sem proteção trabalhista ou segurança estrutural. Em uma única fábrica, mais de cento e cinquenta costureiras morreram soterradas. Equipes de resgate encontraram proprietários tentando salvar máquinas antes mesmo de procurar sobreviventes.
Em vários casos, mercado e Estado pareciam compartilhar a mesma indiferença diante da tragédia.
Recordo especialmente um grupo de mulheres diante dos escombros de uma oficina — cena repetida por toda a cidade. Em várias ruas, ataúdes de pinho alinhavam-se nas calçadas enquanto famílias aguardavam notícias dos desaparecidos. Algumas mulheres cozinhavam em fogareiros improvisados; outras cavavam os destroços com as próprias mãos.
Foi naquele cenário que nosso trabalho humanitário ligado à Igreja Católica começou a mudar de natureza. Já não se tratava apenas de assistência emergencial, mas de reconstrução social.
Em poucas semanas, doações superiores a doze milhões de dólares chegaram aos programas humanitários da Igreja destinados à reconstrução de moradias destruídas pelo terremoto. Paróquias norte-americanas, organizações religiosas europeias, comunidades judaicas e redes internacionais de solidariedade mobilizaram recursos numa velocidade muito superior à capacidade de resposta do Estado mexicano.
A principal dificuldade vinha da interferência do governo e de operadores do PRI, que pressionavam para controlar os recursos enviados diretamente às paróquias católicas no exterior. A disputa revelava algo mais profundo do que simples divergências administrativas.
Durante décadas, o PRI habituara-se a monopolizar praticamente todas as formas de mediação social no México. Sindicatos, cooperativas, movimentos camponeses, associações de bairro e programas assistenciais funcionavam subordinados à lógica clientelista do Estado-partido.
A relação entre o Estado pós-revolucionário e a Igreja Católica permanecera marcada por uma longa tradição anticlerical. A Constituição de 1917 restringira severamente a atuação pública da Igreja. O trauma da Guerra Cristera continuava latente na memória política mexicana.
O terremoto de 1985 alterou parcialmente esse equilíbrio histórico.
Enquanto o Estado hesitava, organizações ligadas à Igreja mobilizavam rapidamente redes internacionais de solidariedade. Pela primeira vez em muitas décadas, setores importantes da sociedade mexicana passaram a enxergar a Igreja não como adversária política, mas como uma estrutura eficiente de apoio social.
Da tragédia nasceu a Sociedad Cooperativa Mexicana de Confección “19 de Octubre”, formada pelas costureiras da Colonia Obrera. Com apoio de advogados e organizações de direitos humanos, localizaram cartões de ponto e fichas de produção soterrados nos escombros. As provas revelavam décadas de exploração trabalhista.
Os proprietários alegaram insolvência e ofereceram o prédio destruído e as máquinas restantes como compensação.
As costureiras aceitaram.
Elaboramos então, junto com elas, um plano para recuperar a fábrica utilizando doações de comunidades católicas norte-americanas. As próprias mulheres encontraram uma solução imediata: artistas mexicanos desenharam bonecas chamadas Victoria. A cooperativa passou a produzi-las e vendê-las para financiar sua sobrevivência.
A fábrica reabriu em abril de 1986, produzindo jeans para a Yves Saint Laurent.
O terremoto acabaria produzindo algo ainda mais inesperado: o fortalecimento de uma sociedade civil autônoma. Brigadas populares de resgate, cooperativas, associações de bairro e movimentos urbanos surgiram espontaneamente, fora do controle tradicional do PRI.
Ao longo dos anos seguintes, aquelas redes improvisadas de solidariedade deixaram de atuar apenas na reconstrução material da cidade. Gradualmente, começaram também a ocupar espaços de participação pública antes monopolizados pelo partido governista.
Regressamos ao México em 1994, já não como operadores humanitários, mas encarregados de viabilizar o arcabouço gerencial da missão internacional de observação eleitoral coordenada no âmbito das Nações Unidas. A transição ocorrera quase sem percebermos. Primeiro chegavam padres, médicos e organizações religiosas; depois vinham juristas, técnicos eleitorais e observadores internacionais.
Nossa tarefa consistia em transformar uma ampla rede de organizações civis em uma estrutura operacional capaz de treinar, deslocar e sustentar milhares de observadores espalhados pelo país durante o processo eleitoral.
O México atravessava então outro momento de instabilidade.
Em janeiro daquele ano, o Exército Zapatista de Libertação Nacional surgira nas montanhas de Chiapas denunciando pobreza indígena, exclusão social e autoritarismo político. Meses depois, o assassinato do candidato presidencial Luis Donaldo Colosio abalaria profundamente o país.
Pela primeira vez em décadas, o sistema político mexicano parecia vulnerável.
As reformas eleitorais do início dos anos 1990 fortaleceram o Instituto Federal Eleitoral e abriram espaço para observadores independentes nacionais e internacionais. As experiências acumuladas pelas Nações Unidas em países como Nicarágua, El Salvador, Camboja e Moçambique serviam como referência técnica para profissionalizar a observação eleitoral.
Acompanhávamos especialistas das Nações Unidas em treinamentos realizados em auditórios improvisados, universidades, sindicatos e salões paroquiais espalhados pelo país. Explicávamos procedimentos de abertura e fechamento das urnas, preenchimento de formulários padronizados, registro de incidentes e elaboração de relatórios independentes.
A palavra mais repetida era imparcialidade — conceito simples no papel, mas muito mais complexo em países onde eleições historicamente confundiam-se com sobrevivência política, clientelismo e medo.
Lembro-me da sensação de movimento contínuo. Telefones tocando sem parar. Veículos cruzando estradas poeirentas. Caixas de material eleitoral empilhadas em corredores de hotéis. Padres oferecendo dormitórios improvisados para observadores vindos do interior.
O México inteiro parecia viver entre ansiedade e expectativa.
Muitas das organizações presentes haviam nascido justamente dos escombros do terremoto de 1985.
Entre elas estavam mulheres da cooperativa “19 de Octubre”. Quase dez anos antes, cavavam ruínas procurando companheiras soterradas. Agora participavam da observação eleitoral cidadã. Algumas ainda carregavam bolsas decoradas com pequenas bonecas Victoria.
A operação eleitoral mexicana revelou-se extremamente exitosa e acabou transformando-se em referência para futuras participações das Nações Unidas em processos eleitorais ao redor do mundo. Em cooperação com a Universidade Nacional Autônoma do México e o Instituto Federal Eleitoral, consolidaram-se metodologias e práticas posteriormente adaptadas a processos de redemocratização em países pós-conflito.
A experiência mexicana ajudou a profissionalizar procedimentos de treinamento, monitoramento e documentação eleitoral, estabelecendo padrões mais claros de neutralidade, transparência e participação cidadã.
Percebi então que parte da reconstrução democrática mexicana nascera justamente daquela experiência coletiva de organização e sobrevivência.
A eleição de 1994 não eliminou completamente velhos mecanismos de pressão política ou o peso da máquina estatal. Mas representou uma mudança importante. Pela primeira vez, o sistema político mexicano aceitava ser observado — e, de certo modo, julgado — pela própria sociedade.
Se o terremoto de 1985 expusera as ruínas físicas do México, a eleição de 1994 revelava algo mais importante: a reconstrução gradual de sua cidadania.
No México, até os fantasmas participam da vida pública.
Por Palmarí H. de Lucena