Memórias de um silêncio

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Memórias de um silêncio


Memórias e narrativas da infância estabelecem marcos, pontos referenciais que nos acompanham vida afora. Família e lugares, misturados, formam a argamassa da existência — às vezes em camadas assimétricas, sem obedecer à lógica de uma estrada bem traçada. Tradições, fantasias, duendes e medos, companheiros de viagem, vão se dissipando com o tempo. Poucos permanecem vivos nos acostamentos estreitos da memória.

Papa-figo, lobisomem, doidos folclóricos e aparições do diabo nas lapinhas. Um homem moreno, vestido em terno de linho branco, que ao partir deixava uma nuvem espessa com odor de enxofre. Medos herdados. Preconceitos enrustidos nas narrativas do mundo adulto que nos cercava. Pessoas com hanseníase, com deficiências mentais ou físicas, ou simplesmente negras, eram transformadas em figuras do temor — vetores de assombração que perturbavam nossas noites mal dormidas.

Grupo escolar. Primeiro dia de aula. Fardamento novo, sapatos bem polidos, gravata azul-escuro bordada com as letras GTM – Grupo Tomaz Mindelo. Um ambiente alegre, carregado de expectativas. Gibis e botões de mesa trocados entre pares, amizades e rivalidades inaugurais. O igualitarismo parecia assegurado pelo uniforme padrão das escolas públicas.

Havia um menino negro chamado João. Diziam ser filho de um carroceiro da Ilha do Bispo. Seu uniforme parecia usado, com rasgões na perna e no fundo da calça — detalhe notado de imediato. No pátio, organizava-se uma pelada. Times formados por altura e idade, substituições combinadas para garantir a participação de todos. João foi o último a ser escolhido.

Bastaram poucos minutos para que mostrasse sua maestria. A bola cruzou o campo como um míssil e entrou entre as traves improvisadas. Gooooool! Tínhamos um craque.

A glória durou pouco. Após o jogo, um grupo de estudantes mais velhos passou a segui-lo. Seu uniforme já surrado foi sendo rasgado, pouco a pouco. João chorava, pedia ajuda, enquanto gargalhadas e assobios cortavam o pátio. Foi seu último dia na escola.

Vítima da crueldade, da indiferença — ou do medo. Todos fomos cúmplices. Não houve advertência, punição ou reparo. O episódio dissolveu-se no cotidiano escolar como se nada tivesse acontecido, protegido pelo silêncio funcional dos adultos e pela naturalização da violência entre crianças. A intimidação venceu não apenas pela força, mas pela certeza tácita da impunidade.

O racismo estrutural não se apresentava como discurso, mas como prática silenciosa. Não gritava palavras de ódio — ria. Manifestava-se na chacota, nos risos cúmplices, no escárnio que diluía a violência e a tornava aceitável. Agia pela omissão, pela permissão tácita, pela indiferença organizada. A gargalhada funcionava como álibi: transformava a agressão em brincadeira, o constrangimento em exagero, a dor do outro em espetáculo breve.

Assim, a violência ensinava cedo que certos corpos são mais vulneráveis, que a humilhação pode ser método e que o medo, quando não interrompido, se transforma em regra. Não era preciso bater: bastava rir. O riso, ali, não aliviava — legitimava. E, protegido pela aparência de inocência, educava gerações para a naturalização do desprezo.

Talvez por isso a memória persista. Porque aquela cena infantil revelou uma pedagogia perversa: a da impunidade cotidiana. João não foi apenas afastado da escola; foi empurrado para fora de um espaço que deveria proteger, acolher e corrigir. Nós, que assistimos, aprendemos outra lição — silenciosa e duradoura: a violência não precisa de monstros nem de grandes escândalos. Basta que ninguém diga basta a tempo.

Por Palmarí H. de Lucena