Melvin Edwards — Harare, 1988

Melvin Edwards — Harare, 1988

Há encontros que só revelam sua importância muitos anos depois. Conhecemos Melvin Edwards e Jayne Cortez em Harare, no Zimbábue, em 1988. Havíamos chegado ao país para uma missão de quatro anos e, enquanto aguardávamos nossa moradia, estávamos hospedados em um hotel. Ainda não tínhamos casa, rotina ou sequer uma ideia muito clara de como seriam aqueles anos.

Lembro-me de Harare como uma cidade que ainda carregava os sinais de uma independência recente. O país havia se tornado independente em 1980. Nas conversas e nas viagens apareciam Moçambique, Angola, Namíbia, África do Sul. Os países da Linha de Frente estavam sempre presentes, de uma maneira ou de outra. A política atravessava as estradas.

Nós viajávamos muito. Havia longos percursos, postos de fronteira, estradas que pareciam não terminar e cidades onde chegávamos sem conhecer ninguém. Aos poucos, os nomes dos lugares deixavam de ser nomes no mapa.

Foi nesse tempo que conhecemos Mel.

Lembro de sua presença antes de lembrar exatamente do que falamos. Era um homem grande, de voz firme, que parecia ocupar naturalmente o espaço à sua volta. A conversa com ele nunca seguia em linha reta. Começávamos por uma coisa e, pouco depois, estávamos falando de outra: um artista, um país, uma exposição, uma lembrança dos Estados Unidos.

Jayne estava por perto. Sua presença era diferente. A poesia aparecia nas conversas, às vezes como uma frase que ficava conosco depois que o assunto havia mudado.

Mel falava muito da África. Falava também dos Estados Unidos, do Brasil e de Cuba. Havia sempre outro lugar entrando na conversa.

Mais tarde compreendi melhor essa circulação.

Mel trabalhava com aço. Quando penso hoje em Lynch Fragments, lembro das correntes, dos ganchos, das peças de metal. Na época, eu não procurava interpretar aquelas formas. Via-as como parte do trabalho de um amigo. Só depois percebi quanto da história que discutíamos nas conversas estava também dentro daqueles materiais.

Jayne tinha sua própria linguagem. Sua poesia fazia parte daquela mesma paisagem, embora chegasse até nós por outro caminho.

Os amigos deles começaram a aparecer em nossa vida.

Entre os moçambicanos estavam Malangatana e Alberto Chissano. Lembro de Malangatana pela intensidade de sua presença e pela maneira como sua pintura parecia nunca estar quieta. Havia sempre figuras, corpos, animais, rostos, movimento.

Chissano era ligado à madeira. Sua escultura tinha outra textura. A madeira guardava os cortes, as marcas, o peso da mão. Sua passagem pelas minas da África do Sul fazia parte de sua história, como fazia parte da história de tantos moçambicanos que haviam atravessado aquela fronteira em busca de trabalho.

Malangatana reconhecia o trabalho de Chissano e o estimulava. Essas histórias circulavam entre nós sem solenidade. Eram contadas em conversas, entre uma visita e outra.

Foi assim que os artistas entraram em nossa vida: primeiro como pessoas, depois como nomes que passamos a reconhecer.

Mel e Jayne também haviam estado no Brasil e em Cuba. Falavam dessas viagens, dos artistas que conheceram, das amizades que fizeram. Mel falava do Brasil com especial interesse. Nós ouvíamos sem imaginar que, anos depois, estaríamos vivendo aqui.

Nossos filhos, Alexander e Paul, eram ainda jovens. Cresceram naquele ambiente, entre adultos que falavam de países diferentes, artistas, viagens e acontecimentos que nem sempre compreendiam inteiramente.

Para eles, Mel era simplesmente Mel.

Uma presença grande, uma pessoa que fazia parte daquele período da vida.

Quando deixamos o Zimbábue e regressamos aos Estados Unidos, em 1992, continuamos a nos encontrar. Alexander e Paul também mantiveram contato com Mel e Jayne. A relação já não dependia de Harare.

Enquanto isso, a África Austral seguia mudando.

Lembro de como o nome de Mandela aparecia nas conversas. Quando conhecemos Mel, Mandela ainda estava preso. Depois veio a libertação, em 1990. Alguns anos mais tarde, em 1994, ele seria presidente da África do Sul.

Jayne tinha escrito Mandela Is Coming. A frase ficou comigo.

Hoje, olhando para aqueles anos, é fácil juntar os acontecimentos. Na época não era assim. Vivíamos um dia de cada vez. Havia trabalho, viagens, crianças, encontros. A História acontecia ao redor, mas a vida continuava acontecendo dentro dela.

Em 2012, já estávamos vivendo no Brasil quando recebemos a notícia da morte de Jayne Cortez.

A notícia trouxe Harare de volta.

Não foi preciso procurar fotografias. Vieram as imagens: o hotel, as conversas, Mel, os artistas, os caminhos percorridos, os anos em que nossos filhos eram pequenos.

Depois, os anos passaram outra vez.

Até chegar a notícia da morte de Mel.

Alexander e Paul nos comunicaram o falecimento e a homenagem que estava sendo prestada a ele na Cooper Union, em Nova York.

Li a notícia e voltei ao começo.

Harare.

1988.

Ainda esperávamos nossa casa. Tudo estava por acontecer.

Lembrei de Mel chegando, da conversa começando, de Jayne, dos amigos que viriam depois.

Pensei em Malangatana. Em Chissano. Nas estradas. Na África Austral. No Brasil que ainda era apenas assunto de conversa.

E então me lembrei de uma coisa muito simples.

Naquele primeiro encontro, compartilhamos algumas coisas e prometemos compartilhar muito mais.

E assim foi.

Palmarí H. deLucena