À Mesa com o Prefeito de Longyan: Uma Crônica Chinesa de Frango e Cortesia

Imagem criada por IA
À Mesa com o Prefeito de Longyan: Uma Crônica Chinesa de Frango e Cortesia

Quando visitei pela primeira vez a República Popular da China, decidi que não bastava apenas cumprir compromissos oficiais — queria compreender, ainda que superficialmente, um pouco da cultura, da história e, sobretudo, da culinária. Sabia que a mesa chinesa é um território sagrado e traiçoeiro: basta uma distração para cometer uma gafe diplomática ou ingerir algo que desafie o estômago ocidental.

Logo percebi que seria impossível abraçar tamanha diversidade em poucas semanas. A culinária chinesa é um mosaico de regiões, etnias e climas — um império gastronômico dividido em oito grandes tradições, cada qual com temperos e técnicas próprias. Em qualquer cidade, por menor que fosse, havia sempre uma versão local do mundo em miniatura: tigelas fumegantes, aromas intensos e uma etiqueta curiosa que permite devolver ao prato o que não agrada, ou mesmo cuspir discretamente uma especiaria rebelde.

As surpresas não se limitavam ao sabor. As traduções dos cardápios — uma verdadeira armadilha semântica — desafiavam a lógica. Antes dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, o governo chegou a ordenar a revisão de mais de dois mil nomes de pratos, tamanha a confusão reinante nas versões em inglês. Ainda assim, em muitos lugares, era mais seguro confiar no número do prato do que no seu nome.

Meu destino era a cidade de Longyan, província de Fujian, no sudeste do país — próspera, verdejante e orgulhosa de seus monumentos tombados pela UNESCO. Foi ali que, em janeiro de 1930, Mao Tsé-Tung consolidou sua liderança na revolução chinesa. A lendária Marcha, que uniu combatentes das províncias vizinhas de Jiangxi e Fujian, deixara um rastro de resistência e idealismo. Em Longyan, esse passado ainda ecoava nas praças e nos monumentos discretos, onde bandeiras vermelhas tremulam com um certo cansaço de pedra e tempo.

Em 2004, a cidade buscava ampliar suas exportações e fortalecer vínculos com organismos internacionais. Fui convidado a ministrar palestras sobre “Como fazer negócios com a ONU” e os “Princípios do Pacto Global”. Ao final da missão, o prefeito de Longyan ofereceu um banquete em nossa homenagem.

A mesa giratória, repleta de iguarias de aparência misteriosa, girava como um carrossel de aromas e texturas. Lá fora, as ruas da cidade exibiam uma mistura de contrastes: arranha-céus recém-construídos refletiam luzes de néon sobre os telhados curvos das antigas casas Hakka. Pequenas lojas de chá e ervas medicinais conviviam com vitrines de eletrônicos reluzentes. O trânsito, disciplinado, avançava entre bicicletas e ônibus silenciosos, como se cada veículo soubesse o exato lugar que lhe cabia na coreografia do cotidiano.

No auge da confraternização, o prefeito perguntou, solene, o que poderiam servir de especial em minha próxima visita. Pensei rápido, varrendo mentalmente os cardápios dos restaurantes chineses do Brasil. Para evitar o silêncio fatal, declarei meu prato favorito: “number twenty-six, chicken with cashews” — o lendário frango com castanhas de caju. O intérprete traduziu com devoção, e todos tomaram nota. Só esqueci de um detalhe: detesto frango.

Seis meses depois, retornei a Longyan. Fui recebido com pompa e um novo banquete. O prefeito, emocionado, ergueu a taça e anunciou:
Something special for our guest of honor: number twenty-six, please!

E lá estava ele, dourado, aromático, onipresente. Nas oito cidades seguintes da missão, repetiu-se o ritual: o “number twenty-six” tornou-se meu passaporte gastronômico, um símbolo de cortesia e fidelidade cultural.

Foi assim que ganhei, involuntariamente, a maratona de degustação de frango com castanhas de caju da China, em 2004.

Mais tarde, descobri que o nome verdadeiro do prato era Gong Bao Ji Ding. Nas traduções apressadas, aparecia como “Government abused chicken” — “frango maltratado pelo governo”. Riram ao me explicar que, nos tempos imperiais, as aves eram tratadas com requinte antes do abate.

Desde então, aprendi uma regra simples para sobreviver à mesa chinesa: se não entender o nome, aprecie o gesto. E, se o sabor não agradar, devolva ao prato com elegância.

À noite, de volta às ruas iluminadas de Longyan, caminhei pelas margens do rio Ting, onde lanternas flutuavam refletindo o vermelho da sorte nas águas calmas. Um vendedor ambulante me ofereceu espetinhos de algo indefinido e sorriu, dizendo “muito bom!”. Agradeci e recusei com o mesmo sorriso. Naquela hora, compreendi que, entre o ideograma e o garfo, há um território invisível — o do humor e da sobrevivência.
E talvez seja isso que mantém o viajante de pé, mesmo depois do terceiro number twenty-six consecutivo.

“Quem come de tudo, entende mais do mundo
do que aquele que explica o menu.”

— Provérbio chinês (ou quase)

Longyan, República Popular da China – 2004

Por Palmarí H. de Lucena