Major Ciraulo e a pedagogia do riso

Major Ciraulo e a pedagogia do riso

Há cidades que se constroem com cimento; outras, com pessoas. Bayeux pertence ao segundo tipo. E o Major Ciraulo é uma dessas figuras que não cabem em placa de bronze, mas sobrevivem naquilo que as cidades têm de mais frágil e resistente: a memória.

Seu nome verdadeiro era Otílio Ciraulo. Quando morreu, em 1963, já não lhe pertenciam apenas os papéis da vida civil ou militar — pertencia à cidade em forma de lenda, de folia e de histórias sussurradas na calçada. Filho de imigrantes italianos, trouxe desde cedo no sangue a inquietação dos que nunca se contentam com o óbvio. Aos dezesseis anos, fez da coragem seu primeiro documento: fugiu da Paraíba num vapor que subiu o Sanhauá e só desceu no Rio de Janeiro, onde uma irmã lhe ofereceu pouso e horizonte.

No Rio, alistou-se no Exército e voltou outro homem — trazendo na bagagem os ventos da Revolução de 1930 e o vício da política sem partido. Ciraulo conviveu com todas as correntes, mas jamais se amarrou a nenhuma. Preferiu ser ponte, e não margem.

De volta à Paraíba, fincou raízes em Bayeux e espalhou influência por João Pessoa. Não construiu prédios, mas atravessou a cidade com gestos. Ainda assim, seu nome se vinculava, por afinidade, à obra de Pascoal Fiorillo — cunhado e arquiteto italiano que deixou marcas físicas na capital, como o Grupo Tomaz Mindelo e o coreto da antiga Praça Venâncio Neiva, o da sombra breve e da lembrança longa, onde o Pavilhão do Chá virou paisagem emocional.

Mas se a cidade lhe reconheceu a retidão, foi a ironia que lhe deu popularidade. Ciraulo entendeu cedo que o riso também organiza o mundo. E organizou.

Criou um bloco carnavalesco com nome que parecia piada e era manifesto: ETLeF — Estamos Todos Logrados e Falidos. O nome não nasceu do acaso: era provocação direta à empresa de Tração, Luz e Força, que iluminava mal e cobrava bem demais. O carnaval, nas mãos de Ciraulo, virou imprensa sem tipografia e palanque sem discurso. O ETLeF desfilava sátira onde antes havia silêncio. Tambores onde antes havia conformismo.

Nos anos 1930, 40 e 50, o bloco não apenas animava João Pessoa — comentava a cidade. Levava às ruas o noticiário que não vinha nos jornais: a insatisfação, as promessas furadas, o cansaço elétrico de uma população que pagava caro por serviços que falhavam no escuro. O bloco tinha sede, tinha voz e tinha alvo. Em Bayeux, na Avenida da Liberdade, o ETLeF ganhou casa — e no carnaval, ganhou povo.

A irreverência não lhe tirava seriedade; dava forma crítica à alegria. Ciraulo fazia do riso um parente da lucidez.

Na Festa das Neves, era outra face: menos estandarte, mais bastidor. Caminhava por entre barracas como quem afina o pulso da multidão. Sabia a hora do excesso e a medida do freio. Sabia que devoção sem ordem vira tumulto, e festa sem vigilância vira rixa.

Diz-se — e a cidade insiste no dizer — que, durante esses dias, produzia um pequeno jornal artesanal. Um jornal de notas miúdas, de observações sorrateiras: a banda que afinou tarde, a senhora que chorou cedo, o menino que trocou devoção por algodão-doce. Nada disso imprimiu-se em gráfica. Imprimiu-se na fala.

Houve também guerra — distante e íntima. Quando sobrenomes passaram a valer desconfiança e sangues viraram suspeita, a memória de Bayeux afirma que Ciraulo abriu as porteiras a descendentes de italianos. Não pediu passaporte nem opinião. Ofereceu silêncio e terra. Não há documento. Mas há uma cidade inteira que não esqueceu.

E houve exageros, porque festa também precisa deles. No carnaval, inventou-se um jogo impossível, em que a Paraíba perdia de 15 a 0 para Pernambuco. Um placar tão absurdo que só podia ser verdade como mentira. Nasciam ali os carros alegóricos e o famoso goleiro Page — que nunca existiu como atleta, mas defendeu mal o bastante para se tornar eterno. Era teatro. Era zombaria. Era liberdade.

Ciraulo não escreveu o roteiro, mas segurou o palco. Não criou o enredo, mas impediu que o riso virasse faca.

Foi abrigo quando o mundo apertou, e limite quando a festa ameaçou escapar do trilho. Guardião sem ostentação. Major sem medalhas visíveis.

Não deixou livros.
Deixou atmosfera.

E atmosfera — essa arquitetura invisível — é a coisa mais cara que uma cidade pode perder e a mais difícil de construir.

Ciraulo não virou estátua.
Virou lembrança viva.

Não virou nome de rua.
Virou nome dito.

Em tempos que pedem fotografia, ele ficou apenas na memória — e nisso há uma forma de eternidade que nenhuma placa contém.

Por Palmarí H. de Lucena