No coração de Bananeiras, quando a névoa da serra descia lenta sobre os telhados coloniais e o sino da matriz marcava o ritmo das horas, erguia-se o Cine Excelsior — pequeno na arquitetura, grandioso na imaginação coletiva. Situado na praça central, ao lado do coreto pousado sobre o canal que atravessa o casario histórico, o cinema integrava-se naturalmente ao cotidiano da cidade, como se sempre tivesse estado ali.
Nos dias de sua glória, o Excelsior era mais que sala de projeção: era rito social. Aos domingos, após a missa, famílias atravessavam a praça em trajes alinhados. Rapazes de cabelo engomado, moças de vestidos rodados e leques perfumados — que serviam tanto à elegância quanto à comunicação secreta — compunham o cenário. Vendia-se amendoim em cartuchos de papel; as cadeiras de madeira rangiam discretamente; e o feixe de luz do projetor atravessava a poeira suspensa como um cometa doméstico, inaugurando sonhos.
Antes que a magia alcançasse a plateia, contudo, havia o crivo moral da época. O pároco, também proprietário da casa, assistia previamente às fitas e determinava cortes rigorosos. Beijos prolongados, abraços intensos, olhares mais demorados eram suprimidos com a precisão de quem acreditava proteger costumes. Assim, Bananeiras construiu sua própria versão de Hollywood — adaptada à disciplina da serra e ao compasso das tradições.
Mas a imaginação sempre encontra frestas. Se a tela negava o romance, a plateia o reinventava. Um leque que se abria devagar podia significar promessa; um fechar brusco, recusa. O cinema era espetáculo, mas também era pretexto: entre as filas nasciam namoros, consolidavam-se amizades e desenhavam-se futuros.
A chegada de E o Vento Levou marcou um ponto de inflexão. A paixão arrebatada da tela incendiou os ânimos na sala. Reservas improvisadas de assentos evidenciaram distinções sociais até então silenciosas. A reação foi inevitável: aboliram-se privilégios. Pela primeira vez, todos assistiram juntos, sem barreiras visíveis — um pequeno gesto que anunciava mudanças maiores.
O Excelsior acompanhou serenatas na praça, festas juninas iluminadas por balões, invernos serranos que pediam casacos e conversas longas. Introduziu modas, espalhou sotaques estrangeiros, ensinou novas maneiras de olhar o mundo. Foi janela aberta além das montanhas que cercam a cidade.
Hoje, mesmo que o projetor tenha silenciado, permanece a claridade da memória. Porque houve um tempo em que Bananeiras se reunia no escuro para compartilhar emoções — e descobria, naquela tela branca, que o mundo era maior do que a serra, mas cabia inteiro na imaginação de uma cidade.
As luzes se apagavam ao fim da sessão.
A era, porém, nunca se apagou.
Por Palmarí H. de Lucena