Poucas questões linguísticas despertaram tanto ruído público em tão pouco tempo quanto a chamada “linguagem neutra”. Defendida por alguns setores como instrumento de inclusão e criticada por outros como deformação artificial da língua, a disputa em torno de seu uso acabou gerando mais calor do que luz. Talvez seja justamente por isso que a recente decisão presidencial de encerrar sua adoção nas comunicações oficiais devolve ao debate a serenidade necessária para separar convicções ideológicas do que realmente importa: a natureza prática e funcional da linguagem.
O português, como qualquer língua viva, muda constantemente. Mas muda por dentro, na boca das pessoas, no fluxo cotidiano das ruas, nos usos espontâneos que se consolidam porque fazem sentido para quem fala. Não é uma entidade estática, mas tampouco é matéria moldável ao sabor de decretos culturais ou de vontades identitárias. A língua segue seu próprio curso — lento, orgânico, silencioso.
Nesse ponto, a linguagem neutra se revela um fenômeno curioso: propõe-se a “incluir”, mas se apoia em estruturas artificiais que não emergiram espontaneamente da fala de ninguém. Não há registro, nas periferias urbanas, no campo, nos mercados populares ou mesmo nas conversas comuns, de uso naturalizado de formas como “menine”, “elu”, “todxs”. Trata-se, no fundo, de um experimento lexicológico de nicho, bem-intencionado, mas desconectado da prática real de um povo que já fala português coloquial com toda a expressividade, afeto e diversidade que a língua comporta.
A experiência internacional mostra que propostas de neutralização morfológica ganham mais resistência do que aceitação quando afetam diretamente a inteligibilidade. E inteligibilidade é o coração da comunicação — aquilo que permite que um país inteiro dialogue com clareza. Uma língua que se fragmenta em códigos paralelos não se fortalece: divide-se.
Aqui reside o ponto central: não se trata de proibir a expressão individual. Cada pessoa pode adotar o registro que desejar na esfera privada, como sempre foi. O que está em questão é o papel do Estado, cuja função linguística é garantir a clareza, a acessibilidade universal e a continuidade histórica da língua usada em documentos, comunicações, normas e políticas públicas. A administração pública não pode converter experimentações sociais — legítimas enquanto expressão cultural — em norma obrigatória para milhões de brasileiros.
O decreto presidencial que suspende o uso oficial da linguagem neutra devolve o português administrativo ao seu eixo natural. Não impede debates, não silencia identidades, não cancela experimentos linguísticos. Apenas reafirma que o Estado deve se valer de uma língua estável, compreensível e compartilhada. Nada mais razoável.
A inclusão — a verdadeira — não nasce de trocas de sufixos, mas de políticas públicas, oportunidades, combate à discriminação e respeito concreto às diferenças. A língua acompanha esses avanços; não os substitui. Forçar estruturas artificiais em nome de causas legítimas é confundir ferramenta com finalidade.
O português brasileiro, com sua musicalidade e sua variedade impressionante, já provou ser capaz de abraçar transformações sem perder sua unidade. E talvez seja essa a maior lição deixada pelo debate: línguas evoluem, mas não por decreto social — evoluem porque as pessoas falam, criam, adaptam e reinventam a cada geração.
No fim, a decisão de retirar a linguagem neutra da esfera oficial não fecha o debate; apenas reposiciona-o no lugar devido. Permite que a sociedade discuta o tema sem transformá-lo em imposição normativa. E devolve ao português — nosso bem simbólico mais democrático — a serenidade que lhe foi subtraída pelo excesso de barulho ideológico.
A língua, afinal, vive melhor quando respira. E respira melhor quando permanece compreensível para todos.
Por Palmarí H. de Lucena