Na calçada da sorveteria
Quando o dia foi raiando,
Um morador de rua
Foi aos poucos despertando.
Se espreguiçou lentamente
E ficou o céu olhando.
A cidade abriu os olhos
No barulho do motor,
Cada qual correndo atrás
Do dinheiro e do valor,
Mas o homem lá no canto
Tinha um brilho sonhador.
Ajeitou seu velho pano,
Sacudiu o cobertor,
Viu um pardal num galho
Cantando sem ter temor.
O pequeno passarinho
Parecia um trovador.
O homem sorriu sozinho
Com ternura e emoção,
Pois quem nada mais possui
Ainda guarda o coração.
E enxergou naquele canto
Uma grande lição.
Então falou para o mundo
Com firmeza e alegria:
— Liberdade é coisa boa,
É riqueza que alumia.
Até pardal canta alto
Quando nasce o novo dia.
Passou gente apressada
Sem sequer lhe dar atenção,
Uns correndo pro trabalho,
Outros cheios de ambição.
Mas ninguém levava a paz
Que ele tinha no chão.
Porque a vida muitas vezes
Prende mais quem muito tem,
Há quem more em casa grande
Mas não viva livre também.
Carregando suas grades
Sem a calma que convém.
O pardal pulou contente
Pela beira do caminho,
Sem dinheiro, sem vaidade,
Sem relógio e sem espinho.
E o homem vendo a cena
Sentiu-se menos sozinho.
Disse então olhando o céu,
Com a voz cheia de verdade:
— O mundo vale bem pouco
Sem amor e liberdade.
Quem aprisiona a própria alma
Morre dentro da cidade.
A manhã ficou mais clara,
O sol dourou o chão frio,
O vento soprou bem manso
Passeando perto do rio.
E o canto daquele pássaro
Parecia um desafio.
Quem escuta esta história
Talvez possa compreender
Que há tesouros invisíveis
Que o dinheiro não dá pra ter.
Pois a alma quando é livre
Nunca deixa de viver.
Seja rico ou seja pobre,
Todo ser quer seu lugar,
Quer um canto neste mundo
Pra sorrir e descansar.
Porque até o pardalzinho
Nasceu livre pra cantar.
E eu termino este cordel
Com respeito e emoção,
Desejando que a esperança
Nunca falte ao coração.
Pois liberdade é semente
Que floresce no sertão.
Cordel de Palmarí H. de Lucena