Cinco anos após a pandemia que abalou o mundo, a paisagem da saúde pública nunca mais foi a mesma. O impacto devastador da Covid-19, que levou milhões de vidas e transformou sociedades, foi rapidamente assimilado, a ponto de, para muitos, parecer um episódio distante. No entanto, seus efeitos mais profundos só agora começam a se revelar, e um deles pode ser irreversível: a privatização da resposta às crises sanitárias.
Durante a pandemia, o mundo testemunhou um fenômeno inédito: a transferência progressiva da gestão da saúde pública para o setor privado. No auge da crise, foi o investimento de grandes farmacêuticas que impulsionou a criação de vacinas em tempo recorde. A distribuição das doses, em muitos casos, recaiu sobre hospitais privados, redes de farmácias e empresas que, mesmo operando em parceria com o governo, atuaram sob uma lógica de mercado. Com o tempo, esse modelo se solidificou, e os sistemas tradicionais de saúde pública foram enfraquecidos.
A degradação da infraestrutura de saúde pública ficou evidente nas primeiras semanas do novo governo nos Estados Unidos. Cortes severos no Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), restrições em pesquisas e a nomeação de figuras controversas para liderar a saúde nacional apontam para um futuro alarmante. Não é apenas uma questão de administração: é uma mudança de paradigma.
Historicamente, a saúde pública foi um campo de intervenção estatal, estruturado para proteger populações inteiras por meio de medidas preventivas e a distribuição equitativa de recursos. Mas a resposta à Covid-19 inaugurou um novo modelo: o da pandemia privatizada. Testes, vacinas e a própria comunicação sobre a crise foram fragmentados em iniciativas privadas, resultando em um mosaico desigual de acesso à saúde.
Um dos principais sintomas dessa transição foi a perda de confiança na ciência oficial. O vácuo deixado pelo Estado foi preenchido por desinformadores, influenciadores digitais e setores empresariais com interesses próprios. Em meio à incerteza, indivíduos recorreram a soluções privadas, seja para obter informação, testes ou tratamentos. Essa tendência, longe de ser um fenômeno passageiro, está moldando a forma como futuras crises sanitárias serão enfrentadas.
O impacto da privatização da saúde vai muito além da gestão de pandemias. A negociação de preços de vacinas, por exemplo, antes mediada por governos, passa a ser definida pelo mercado. Isso não apenas limita o acesso da população mais vulnerável, mas também aumenta os riscos globais, pois baixa adesão à vacinação facilita o surgimento de novas variantes. Da mesma forma, a vigilância epidemiológica, que antes era conduzida por instituições públicas como a OMS e os CDCs nacionais, está sendo assumida por startups e gigantes da tecnologia. Essa mudança levanta questões críticas: os dados estarão acessíveis a todos? Haverá influência comercial na interpretação dessas informações?
A resposta à pandemia da Covid-19 mostrou a eficiência de soluções privadas, mas também evidenciou os perigos de depender exclusivamente do mercado para questões de saúde global. Algumas áreas simplesmente não podem ser privatizadas sem consequências desastrosas. O acesso equitativo à saúde, a confiança na ciência e a proteção coletiva contra ameaças sanitárias são bens públicos fundamentais.
Se seguirmos pelo caminho da privatização irrestrita, corremos o risco de transformar crises de saúde em oportunidades de lucro para poucos, enquanto a maioria da população fica à mercê da própria sorte. A pandemia nos ensinou que o individualismo extremo pode ser fatal; ignorar essa lição pode ser um erro que custaremos a reverter.
PalmarÍ H. de Lucena