Jornada pelos Bálcãs

Jornada pelos Bálcãs

Nossa jornada pelos Bálcãs começou na então República Socialista Federativa da Iugoslávia — um mosaico de contradições, espelho de uma região onde a História nunca dorme. Ali, impérios e ideologias se sucederam como estações de um mesmo inverno. Ao longo de mais de dois milênios, aquele território fora devastado quarenta e sete vezes. No século XIX, os socialistas alemães cunharam o termo balcanização para descrever o processo de fragmentação patrocinado pelo czar russo — dividir para dominar. A expressão atravessou o tempo e tornou-se sinônimo de fissura e desconfiança, de povos transformados em vizinhos hostis pela política.

Nos anos 1970, essa fissura ainda tremia sob a superfície. O Ocidente mantinha com os Bálcãs uma relação de ambiguidade e conveniência: elogiava o “comunismo com rosto humano” de Tito e fingia crer na neutralidade de Ceausescu, enquanto ignorava o descontentamento que fermentava nas províncias. Sérvios, croatas, bósnios e albaneses conviviam num equilíbrio forçado, sustentado por um regime que confundia silêncio com estabilidade.

Durante o mês em que percorremos a região, o silêncio era quase absoluto. Nenhum panfleto, nenhuma crítica, nenhuma ironia pública. A propaganda e a vigilância haviam transformado a conformidade em rotina. O único sinal de dissidência que ouvimos veio de um grupo de jovens estudantes, reunidos discretamente num café de estrada entre Nis e Sofia. Estavam furiosos: haviam sido convocados para o serviço militar obrigatório.

Falavam com amargura contida sobre a perda da juventude, os estudos interrompidos e o medo de serem enviados às fronteiras. Um deles, de cabelos longos e olhar melancólico, resumiu o sentimento coletivo:
“Eles nos ensinam que a pátria é tudo, mas a pátria nunca nos pergunta o que queremos dela.”

A frase ficou gravada em minha memória como um sussurro de lucidez em meio à névoa ideológica. Era a voz de uma geração sem voz — filhos de um regime que lhes dava segurança, mas roubava o sonho.

Deixamos a Sérvia e seguimos rumo à Bulgária, em busca do lendário Vale das Rosas. A paisagem parecia querer redimir o homem de sua própria dureza. Colinas cobertas de flores, o perfume impregnando o ar, o sol dissolvendo fronteiras. As mulheres trançavam rosas nos cabelos, e os mercados ofereciam compotas e licores com o mesmo orgulho com que um país exibe sua bandeira. Era uma festa dos sentidos, mas havia algo de melancólico naquele esplendor — como se a terra tentasse disfarçar o peso da História.

Seguimos até a fronteira romena, rumo a Drobeta-Turnu Severin, às margens do Danúbio. E ali, a realidade voltou com força: uma longa fila de carroças e veículos de tração animal bloqueava a estrada. Policiais, gritos, cavalos e uma palavra repetida com desprezo — tsigani, ciganos. Uma caravana Romani protestava contra a proibição de acampar nos arredores da cidade. Fotografamos o que pudemos até sermos cercados por oficiais. As câmeras foram confiscadas, os filmes expostos à luz. “Os ciganos não fazem parte da nossa cultura”, disse um comissário, sem emoção. Fomos escoltados de volta ao carro, conscientes de que havíamos testemunhado o outro lado da utopia.

Mais tarde, um dos líderes da caravana nos contou: “Eles dizem que somos errantes, mas é o mundo que nunca nos deu lugar.” Suas palavras ecoavam a mesma dor dos jovens soldados — diferentes rostos de uma mesma exclusão.

O nome cigano, derivado do inglês Gypsy, nasceu de um equívoco etnográfico: acreditava-se que o povo Romani vinha do Egito, quando, na verdade, suas origens remontam ao nordeste da Índia. Escravidão, exílio e extermínio compõem sua longa história de rejeição. Na Romênia, a escravidão dos Romani foi abolida apenas em 1855; durante o nazismo, meio milhão deles foi exterminado. Após a guerra, regimes comunistas impuseram políticas de assimilação forçada, negando-lhes identidade e língua.

Somente em 1979, a ONU reconheceria oficialmente os Romani como grupo étnico distinto, com direito ao idioma e à proteção cultural. E em 2007, a Igreja Católica publicaria seu primeiro documento dedicado a eles — tardio, mas simbólico.

Viajar pelos Bálcãs é aprender que cada colina e cada rosto guardam uma narrativa interrompida. Entre o perfume das rosas e o silêncio das vozes reprimidas, o viajante entende que os verdadeiros mapas da região não estão nas fronteiras, mas na memória dos que foram calados.

E talvez o maior aprendizado de toda a travessia seja este: nas terras em que o poder exige unanimidade, o simples ato de pensar diferente já é um gesto de coragem.

Romênia, 1973

Por Palmarí H. de Lucena