Joaquim Pereira — memória de um compadre, de um maestro, de um homem de honra

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Joaquim Pereira — memória de um compadre, de um maestro, de um homem de honra

O maestro Joaquim Pereira era compadre de meu pai, o Tenente Lucena. Por isso, falar dele não é apenas escrever sobre música — é abrir um álbum de família onde farda, amizade e partitura se confundem.

Nascido em Caiçara, trazia no olhar a serenidade de quem cresceu no interior, entre trabalho duro e valores firmes. Aprendera cedo que disciplina e dignidade caminham juntas. Talvez por isso sua música nunca tenha sido exibicionista: era sólida, direta, honesta como suas raízes.

Conheci-o no ambiente do quartel, entre estantes de dobrados e o brilho polido dos metais. Na banda do 15º Regimento de Infantaria, sua presença organizava o espaço antes mesmo de levantar a batuta. Não precisava elevar a voz. Um gesto bastava. Exigia precisão, mas corrigia com respeito. Repetia um trecho quantas vezes fossem necessárias até que a execução alcançasse clareza e coesão. Para ele, disciplina não era rigidez — era compromisso com o coletivo.

Entre meu pai e ele havia admiração mútua. Conversavam longamente após os ensaios, falando da música como missão. Para ambos, tocar não era simples entretenimento; era serviço à pátria e à cultura. O compadrio nasceu naturalmente dessa afinidade de valores.

Sua trajetória o levou à Academia Militar das Agulhas Negras, onde consolidou reputação nacional. Organizou, elevou padrões, inspirou músicos vindos de várias regiões. Ali escreveu também páginas importantes de sua obra. Poderia ter permanecido distante, mas a saudade da Paraíba o trouxe de volta. E foi na Orquestra Sinfônica da Paraíba que revelou plenamente sua maturidade artística: a mesma firmeza marcial, agora temperada por lirismo e profundidade orquestral.

Recordo-me especialmente do momento em que surgiu o dobrado “Os Flagelados”. Percebia-se nele algo mais íntimo. Não era peça festiva; era testemunho. Ele via os retirantes da seca nas ruas da capital e carregava aquela imagem em silêncio. A marcha nasceu firme, mas atravessada por dignidade e respeito. Os metais soavam como passos insistentes na estrada; a percussão marcava resistência; os silêncios evocavam a terra árida. Não havia sentimentalismo fácil — havia verdade.

Era o homem do interior falando através da música. Transformou indignação em partitura, dor social em memória sonora.

No quartel ou na sinfônica, era sempre o mesmo Joaquim: compadre leal, maestro rigoroso, amigo presente. Regia músicos, mas também regia pelo exemplo. Sua batuta parecia prolongamento de sua consciência — firme, equilibrada, justa.

Hoje, quando escuto um dobrado bem executado ou uma orquestra afinada, volto àquelas tardes de ensaio, às conversas entre ele e meu pai, ao som que unia disciplina e humanidade.

E é assim que o guardo na memória: não apenas como maestro consagrado, mas como homem que transformou origem humilde em grandeza sonora, amizade em lealdade duradoura e música em identidade.

Por Palmarí H. de Lucena