João Pessoa começa cedo, mas não exatamente com pressa. Nas ruas, o dia se organiza aos poucos: portas de comércio se abrem, ônibus passam, padarias distribuem o cheiro de pão recém-saído do forno e grupos de turistas aparecem com aquela expressão de quem ainda está decidindo se está seguindo um roteiro ou simplesmente andando. Alguns carregam sacolas de padaria; outros mantêm os celulares levantados, prontos para registrar alguma coisa que talvez ainda nem tenham decidido o que é. Quase todos parecem ter descoberto que, numa cidade desconhecida, qualquer esquina pode servir de atração, desde que haja luz suficiente para uma fotografia.
Pelas ruas, esses grupos avançam sem muita pressa e, às vezes, sem saber exatamente para onde estão indo. Caminham em pequenos bandos, consultando mapas no celular, apontando para fachadas e interrompendo o percurso diante de qualquer detalhe que pareça digno de registro. Há algo de desorientado e, ao mesmo tempo, satisfeito nesse modo de andar: a viagem parece menos uma sequência de destinos do que uma coleção de pequenas distrações, em que o acaso acaba fazendo parte do roteiro.
E há as selfies, muitas delas, diante de igrejas, fachadas antigas, árvores, monumentos e, naturalmente, do mar. A cidade oferece a paisagem e o visitante oferece o próprio rosto para completá-la, transformando o patrimônio em cenário e o cenário em prova de presença. Talvez essa seja a forma contemporânea de comprovar que uma viagem aconteceu: não basta ter estado num lugar, é preciso aparecer diante dele.
O braço se estende, o celular sobe, a cabeça inclina-se alguns graus e começa uma breve negociação com a luz. Atrás do grupo, uma igreja de séculos parece esperar pacientemente que a fotografia termine, embora seja difícil imaginar que seus construtores tenham previsto que sua função futura incluiria servir de pano de fundo para dezenas de autorretratos.
No Centro Histórico, entretanto, o tempo parece menos interessado em acompanhar as novidades. As fachadas antigas, algumas restauradas e outras simplesmente cansadas, convivem com portas fechadas, janelas abertas, fios, placas, carros estacionados e pequenos sinais de uma vida que não costuma aparecer nos cartões-postais. Uma parede descascada pode ser mais eloquente do que uma placa comemorativa, porque não pretende explicar nada e, justamente por isso, deixa espaço para a imaginação.
Há coisas que a cidade preserva porque decidiu preservá-las, enquanto outras sobrevivem por teimosia, esquecimento ou falta de dinheiro. Para o observador, as duas categorias acabam produzindo uma pergunta semelhante: quanto de uma cidade precisa permanecer intacto para que ela continue sendo reconhecida? João Pessoa parece viver nesse intervalo entre a conservação e a transformação, entre aquilo que se deseja guardar e aquilo que o presente insiste em substituir.
Essa tensão fica mais evidente quando o caminho se aproxima do litoral. O mar é a grande constante, enquanto pessoas, edifícios, restaurantes, atrações e modas mudam ao seu redor. O oceano mantém uma impressionante indiferença administrativa: não participa de reuniões, não aprova projetos, não inaugura empreendimentos e não parece preocupado com a quantidade de fotografias que recebe diariamente. Está ali, enquanto a cidade cresce em sua direção.
Em alguns trechos, a mata parece ter sido empurrada para os cantos, como um parente inconveniente numa fotografia de família. Restam manchas de verde entre construções, terrenos, muros e novas obras, e a vegetação precisa disputar espaço com uma cidade que descobriu uma antiga verdade imobiliária: quase tudo pode ser construído quando existe espaço suficiente e alguém disposto a construir. O problema é que o espaço, sobretudo numa cidade costeira, nunca parece suficiente.
O excesso de construções modifica não apenas a paisagem, mas também a experiência de estar nela. O horizonte vai desaparecendo aos poucos, aquilo que antes era distância transforma-se em parede e o espaço aberto cede lugar a estruturas, veículos, placas e atrações. A cidade cresce e, ao crescer, às vezes parece ocupar justamente aquilo que a tornava agradável: o vazio, a sombra, a continuidade da paisagem e a possibilidade de olhar para longe sem encontrar imediatamente uma construção.
Na área do Busto de Tamandaré, essa contradição ganha uma forma particularmente visível. É um lugar onde tudo parece acontecer ao mesmo tempo: turistas chegam, vendedores oferecem produtos, crianças correm, pessoas fotografam, carros procuram passagem, barracas ocupam espaços e alguém está sempre tentando atravessar enquanto outro tenta estacionar. No meio dessa concentração de atividades, pequenas motos atravessam o furdunço com uma segurança quase filosófica, como se conhecessem uma geometria secreta da confusão.
Passam entre pedestres, desviam de obstáculos e encontram frestas que não pareciam existir. A motocicleta brasileira talvez seja uma das poucas máquinas capazes de transformar um espaço público em problema de matemática, porque cada pessoa precisa calcular sua própria trajetória. O turista calcula onde ficará melhor na fotografia, o vendedor calcula a próxima venda, o motorista calcula a passagem, o pedestre calcula o momento de atravessar e o motociclista, aparentemente, calcula tudo isso ao mesmo tempo.
O resultado é uma coreografia que funciona até o momento em que deixa de funcionar. Há algo de involuntariamente cômico nessa concentração de atrações destinadas ao lazer, porque o lugar que deveria produzir descanso exige atenção permanente. É preciso olhar o mar, mas também prestar atenção à moto; apreciar o pôr do sol, mas verificar quem vem por trás; escolher o melhor ângulo para a fotografia e, ao mesmo tempo, certificar-se de que ninguém está prestes a atravessar o enquadramento.
A paisagem oferece tranquilidade, enquanto a infraestrutura responde com ansiedade. Ainda assim, as pessoas permanecem, talvez porque o mar tenha uma vantagem sobre qualquer planejamento urbano: não precisa se esforçar para atrair ninguém.
No fim da tarde, começam a chegar os espectadores do pôr do sol. Alguns já sabem exatamente onde ficar; outros procuram o melhor ponto, como se houvesse uma comissão encarregada de fiscalizar a qualidade da fotografia. O sol desce lentamente, os celulares sobem e, por alguns minutos, a orla inteira parece participar de uma cerimônia que mistura contemplação e produção de conteúdo.
Selfies, selfies e mais selfies. Alguns contemplam, outros registram e outros precisam registrar que contemplaram. É difícil saber onde termina a experiência e começa a documentação da experiência, embora seja possível imaginar que, para muita gente, as duas coisas já sejam inseparáveis.
Talvez esse seja um dos dilemas do turista contemporâneo: viajar para ver e, ao mesmo tempo, viajar para produzir provas de que viu. A fotografia, que deveria guardar a memória de uma experiência, às vezes passa a ocupar o lugar da própria experiência. O visitante olha para a tela para conferir a imagem que acabou de fazer do lugar que estava diante de seus olhos.
Enquanto isso, a cidade continua acontecendo fora do enquadramento. Um vendedor conversa com outro vendedor, uma criança pede alguma coisa, um morador passa sem olhar para o pôr do sol porque já o viu muitas vezes, uma senhora atravessa a rua com uma sacola e uma moto encontra mais uma passagem improvável entre os pedestres. É nesse conjunto de acontecimentos banais que a cidade recupera sua autonomia diante do espetáculo turístico.
Em algum momento, os grupos começam a retornar. O roteiro terminou, as fotografias foram feitas e as lembranças foram compradas. O turista procura o caminho de volta ao hotel, enquanto a cidade retoma gradualmente seu ritmo habitual. É justamente nessa hora que uma cidade visitada começa a parecer menos um destino e mais um lugar onde as pessoas realmente vivem.
O turista costuma procurar o excepcional, mas o observador atento acaba encontrando o cotidiano. Uma cidade não é somente aquilo que decidiu mostrar de si mesma; é também aquilo que escapa à promoção: a árvore que sobrevive entre prédios, a fachada que não foi restaurada, o terreno tomado pelo mato, o excesso de construções, a calçada ocupada, a motocicleta que atravessa o caminho e o pão comprado numa padaria qualquer.
São essas coisas que resistem à ideia de cartão-postal e tornam uma cidade reconhecível para além de suas imagens oficiais. João Pessoa parece especialmente interessante quando vista desse ângulo, não como uma cidade perfeita, mas como uma cidade em negociação consigo mesma.
Há a cidade histórica e a cidade que cresce, a cidade que preserva e a que substitui, a cidade que oferece silêncio e a que produz furdunço, a cidade das árvores e a cidade dos edifícios, a cidade do mar e a cidade que tenta cercá-lo de atrações. Talvez toda cidade esteja condenada a essa negociação, mas a questão permanece: quanto pode mudar antes que deixe de reconhecer a própria paisagem?
Ao anoitecer, o movimento começa a se dispersar. As fotografias já foram feitas, as selfies provavelmente estão sendo enviadas para alguém e o comércio diminui lentamente. O mar continua diante da cidade, a mata permanece onde ainda lhe deixaram espaço, os edifícios permanecem onde foram erguidos e as pequenas motos continuam encontrando seus caminhos.
O viajante passa pela cidade tentando guardar alguma coisa dela — fotografias, nomes, impressões e talvez a lembrança de uma manhã qualquer. A cidade, por sua vez, não parece interessada em ser guardada; simplesmente continua, indiferente ao álbum de fotografias que será levado para casa.
Talvez seja essa a melhor maneira de percorrer João Pessoa: não procurando apenas a cidade que aparece nos folhetos, mas aquela que surge entre uma atração e outra, quando a câmera é finalmente abaixada e ninguém está posando. É nesse instante, quando desaparece a necessidade de registrar tudo, que a cidade deixa de ser cenário e começa a ser observada.
E talvez seja também nesse instante que uma viagem realmente começa.
Palmarí H. de Lucena