João Pessoa entre o espetáculo e a omissão

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João Pessoa entre o espetáculo e a omissão

Os dados mais recentes sobre o saneamento básico no Brasil deveriam servir de alerta incontornável: 89% das grandes cidades ainda não cumprem as metas estabelecidas pelo Marco Legal. Não se trata apenas de um indicador técnico, mas de um sintoma claro de prioridades distorcidas. Em João Pessoa, esse descompasso entre o essencial e o acessório tornou-se particularmente visível.

A capital paraibana tem apostado, de forma recorrente, em uma lógica de gestão orientada pelo impacto visual. A valorização do turismo, o embelezamento de áreas estratégicas e o capeamento de ruas são apresentados como sinais inequívocos de progresso. São ações que rendem imagens, discursos e presença constante em agendas públicas — em suma, aquilo que se convencionou chamar de “photo opportunities”, úteis a gestores interessados na reeleição ou na projeção para cargos mais elevados.

Não se nega a importância dessas iniciativas. O problema reside na sua centralidade. Quando o visível se torna prioridade, o essencial passa a ser negligenciado. O saneamento básico, ainda incompleto, e a drenagem urbana, frequentemente insuficiente, seguem avançando em ritmo aquém do necessário, especialmente nas áreas mais vulneráveis da cidade.

O capeamento de ruas, frequentemente alardeado como símbolo de eficiência administrativa, ilustra com precisão essa inversão. Executado sem a devida integração com sistemas de esgoto e drenagem, ele contribui para a impermeabilização do solo urbano, impedindo a absorção da água da chuva e sobrecarregando galerias pluviais já limitadas. O resultado é conhecido da população: alagamentos recorrentes, bueiros entupidos, refluxo de esgoto e transtornos que se repetem a cada período chuvoso.

As consequências extrapolam o incômodo cotidiano. Em áreas de encostas e falésias, o escoamento desordenado da água intensifica processos erosivos e eleva o risco de deslizamentos e desabamentos. O que deveria representar melhoria urbana transforma-se, assim, em fator adicional de vulnerabilidade.

A esse cenário soma-se uma política de conveniência. A fiscalização de irregularidades urbanas — seja no trânsito, seja na ocupação de espaços públicos — mostra-se, por vezes, seletiva. Evita-se o enfrentamento de questões sensíveis, preservando-se apoios e evitando desgastes. Consolida-se, desse modo, uma gestão que prefere contornar problemas a resolvê-los.

Há, nesse modelo, uma distorção preocupante do próprio sentido da política. Governar deixa de ser sinônimo de resolver e passa a significar comunicar. A eficiência cede espaço à estética; o planejamento, à conveniência; o interesse público, à estratégia eleitoral.

Não se trata de condenar a comunicação institucional, que é parte legítima da gestão. Trata-se de questionar quando ela se torna finalidade, e não consequência. Uma administração comprometida com resultados não precisa produzir artificialmente suas vitrines — elas emergem naturalmente de políticas bem executadas.

A política das “photo opportunities” pode ser eficaz no curto prazo, sobretudo em ciclos eleitorais. Mas seus efeitos são passageiros. Já os problemas negligenciados — saneamento precário, drenagem insuficiente, desorganização urbana — permanecem. E, com o tempo, tornam-se impossíveis de enquadrar em qualquer fotografia favorável.

Cria-se, assim, uma cidade que funciona como vitrine: bem apresentada em determinados ângulos, mas marcada por fragilidades estruturais fora do campo de visão. Multiplicam-se intervenções de efeito imediato, fragmentam-se obras para ampliar inaugurações e reforça-se a presença constante do gestor no espaço público — não necessariamente para transformá-lo, mas para ocupá-lo simbolicamente.

Esse modelo, embora politicamente funcional no curto prazo, cobra um preço elevado. Problemas estruturais não desaparecem; acumulam-se. O saneamento permanece incompleto, a drenagem insuficiente e a desorganização urbana se naturalizam. O que se vende como eficiência revela-se, no tempo, como omissão.

João Pessoa não é exceção nesse cenário, mas tampouco está isenta de responsabilidade. Governar exige mais do que produzir imagens favoráveis. Exige enfrentar o que não aparece, investir no que não rende aplauso imediato e planejar para além do ciclo eleitoral.

Uma cidade não se sustenta sobre aparências. Ao priorizar o espetáculo em detrimento da infraestrutura, corre-se o risco de transformar o espaço urbano em cenário — e a gestão pública, em encenação. E, nesse roteiro, quem paga o preço é sempre o cidadão.

Por Palmarí H. de Lucena