João Pessoa: Em Busca do Tempo Perdido

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João Pessoa: Em Busca do Tempo Perdido

Durante quarenta anos vivi longe de João Pessoa, e durante esse tempo aprendi aquilo que só a distância ensina: partir não significa abandonar, assim como permanecer não significa possuir. Habitei cidades estrangeiras, atravessei invernos rigorosos, aprendi a reconhecer a melancolia de céus cinzentos e a disciplina silenciosa de povos que fazem da reserva uma forma de elegância. Vivi entre idiomas que não eram meus, entre estações que não pertenciam à minha infância, entre ruas que jamais aprenderam a pronunciar meu nome com intimidade.

E, no entanto, bastava às vezes o aroma inesperado de um café mais forte, o ruído de uma onda quebrando ao longe, ou a incidência de uma certa luz dourada sobre a tarde, para que, sem aviso, eu deixasse de estar onde estava e regressasse, com uma nitidez quase cruel, à cidade onde minha vida havia começado.

Porque João Pessoa nunca me abandonou verdadeiramente; ela recolheu-se apenas àquela parte mais funda da memória onde as coisas essenciais permanecem adormecidas, aguardando pacientemente o instante de sua ressurreição. Não era uma lembrança organizada, nem uma narrativa que eu pudesse contar com precisão. Era antes uma sensação, um tecido invisível feito de calor, de sal, de vozes familiares, de ruas antigas e de tardes compridas, onde o tempo parecia menos uma linha e mais uma respiração.

Às vezes, ela surgia sem aviso. No cheiro do café forte pela manhã, eu era transportado para a cozinha da minha infância. No som distante de uma onda, voltava às praias de Tambaú e Cabo Branco, onde o horizonte parecia prometer tudo e o tempo se movia com a lentidão generosa das coisas eternas. Bastava uma luz dourada no fim da tarde para que eu me lembrasse daquela cidade onde o sol nasce primeiro e onde a vida parecia manter uma intimidade silenciosa com o mar.

Recordo-me das manhãs em Tambaú, quando o mar ainda pertencia ao silêncio e a cidade despertava devagar, como se não quisesse romper a delicadeza da aurora. A luz chegava primeiro à água, depois à areia, e só mais tarde aos homens e mulheres que caminhavam sem pressa pela orla, como se obedecessem a uma liturgia antiga. Naquele tempo, eu não sabia que a felicidade era aquilo; só mais tarde, na ausência, compreendi que a felicidade quase sempre se reconhece tarde demais.

As casas do centro histórico, com suas fachadas gastas e sua dignidade intacta, permaneceram dentro de mim como parentes silenciosos. Quando regressei, muitos anos depois, não foram elas que me pareceram envelhecidas, mas eu mesmo. Havia nelas uma permanência quase severa, como se me perguntassem em silêncio o que eu havia feito com o tempo que me foi dado. Caminhar por aquelas ruas era reencontrar não apenas lugares, mas versões antigas de mim mesmo: o menino que sonhava partir, o jovem que acreditava que o mundo começava sempre em outro lugar, o homem que descobriu, tarde demais, que certas partidas são apenas formas demoradas de retorno.

Nas ruas de Jaguaribe onde um dia corri menino, ainda escuto passos que já não existem. Nas esquinas antigas, reencontro vozes apagadas pelo tempo, risos de família, promessas juvenis, tardes infinitas de um mundo que parecia não conhecer despedidas. Cada pedra, cada varanda antiga, cada sombra lançada sobre o casario antigo parece guardar não apenas a memória da cidade, mas a memória de quem fui dentro dela.

Mas ao regressar a João Pessoa, não reencontrei apenas ruas, praias e o rumor antigo do mar; reencontrei também a minha própria língua, e talvez esse tenha sido o retorno mais profundo de todos.

Durante quarenta anos vivi cercado pelo idioma estrangeiro, pela precisão útil e fria do anglo-saxonismo, por essa língua eficiente que organiza o mundo, mas raramente o consola. Aprendi a pensar em inglês, a negociar em inglês, a sobreviver em inglês. Durante décadas, minhas palavras vestiram outra pele, e pouco a pouco fui percebendo que não era apenas o vocabulário que mudava, mas a própria respiração da alma.

Há línguas que servem para explicar a vida, e há línguas que servem para senti-la. O inglês me deu caminhos; o português me devolveu abismos.

Foi somente ao voltar que percebi o quanto minha voz havia se tornado disciplinada demais, quase domesticada, presa a uma arquitetura racional que empobrecia o excesso, a ambiguidade e a vertigem — justamente aquilo que faz da língua portuguesa uma morada e não apenas um instrumento. O português não se contenta em dizer; ele insinua, hesita, contorna, suspira. Ele conhece a saudade antes mesmo que ela exista. Ele sabe que certas dores precisam de música para serem suportadas.

Reencontrar o português foi como abrir uma janela antiga numa casa fechada havia muitos anos. De repente, o ar entrou. Vieram as palavras esquecidas, os sotaques da infância, os silêncios cheios de sentido, as expressões que nenhuma tradução alcança. Voltaram as frases longas como tardes nordestinas, os verbos carregados de destino, a doçura melancólica de dizer “talvez”, a delicadeza feroz de um “quem sabe”.

Percebi então que o exílio não havia sido apenas geográfico, mas também verbal. Eu havia partido da minha cidade e, sem perceber, também da minha própria música. Meu verso, meu canto interior, haviam sido lentamente atrelados a uma sintaxe estrangeira, a uma disciplina que me afastava do excesso necessário à poesia. Escrevia com correção, mas já não sangrava.

E foi João Pessoa, com sua maresia antiga e sua lentidão quase sagrada, que começou a desfazer esse nó. O português voltou não como um idioma, mas como uma libertação. Cada palavra recuperada parecia retirar uma camada de ferrugem da memória. Cada frase escrita na minha língua natal me devolvia não apenas estilo, mas pertencimento.

Descobri que certas verdades só aceitam nascer em português. Que a infância não se traduz. Que a saudade não admite equivalência. Que o amor, quando dito em outra língua, às vezes chega correto, mas não inteiro.

No Cabo Branco, diante do mar, compreendi aquilo que nenhuma filosofia estrangeira havia conseguido me ensinar com igual clareza: pertencemos menos aos países que escolhemos do que à paisagem que primeiro moldou nosso olhar. O oceano permanecia indiferente, como sempre, às minhas ausências, às décadas passadas, às línguas aprendidas e aos fracassos discretos que toda vida acumula. E nessa indiferença havia uma espécie de misericórdia, porque o mar não exige explicações; ele apenas permanece.

O cheiro da maresia ainda me devolve à infância com uma força que nenhuma fotografia alcança. O vento que atravessa o Cabo Branco ainda parece carregar o nome daqueles que amei e daqueles que perdi. E quando o sol nasce primeiro sobre aquela faixa de Atlântico, sinto que não é apenas um novo dia que começa, mas uma antiga fidelidade que se renova.

Talvez seja isso o pertencimento: saber que, mesmo ausente, nunca se esteve verdadeiramente longe. Durante quarenta anos atravessei continentes, idiomas, invernos e silêncios, mas havia sempre dentro de mim uma rua de João Pessoa esperando ser reencontrada. Uma janela aberta para o passado. Uma varanda com cheiro de café. Uma manhã de domingo ainda intacta.

Hoje sei que não regressei apenas à cidade — regressei a mim mesmo.

E se algum dia me perguntarem onde mora a parte mais verdadeira da minha alma, não direi um endereço, nem um país, nem uma casa. Direi apenas: ela mora onde o sol toca primeiro as Américas, onde o mar conversa com a memória, onde a infância nunca termina completamente.

Ela mora em João Pessoa.

E assim, ao fim de tantas partidas e regressos, compreendo que João Pessoa nunca foi apenas uma cidade no mapa, mas uma espécie de pátria interior, um território secreto onde o tempo não destrói — apenas amadurece.

Voltar, depois de quarenta anos, não foi recuperar o que passou, porque o passado não se devolve; foi reconhecer que ele continuava vivo, respirando silenciosamente dentro de mim, como a maré que se afasta apenas para sempre retornar. Cada rua, cada fachada antiga, cada sopro de vento vindo do mar parecia dizer, com a delicadeza das coisas permanentes: você nunca esteve realmente longe.

A cidade onde nasci guardou, sem pressa, aquilo que o mundo não conseguiu apagar: minha primeira ideia de beleza, minha primeira experiência de ausência, meu primeiro entendimento de amor e de perda. João Pessoa foi o início de tudo, e talvez por isso continue sendo, também, uma forma de destino.

Há um momento da vida em que deixamos de procurar novos horizontes e começamos, em silêncio, a procurar as origens. Não por saudade apenas, mas porque entendemos que aquilo que fomos continuar sustentando aquilo que somos. E nesse retorno tardio, quase sagrado, descobrimos que certas cidades não pertencem ao passado — pertencem à essência.

Se Marcel Proust encontrou numa pequena madeleine o caminho inteiro de volta à infância, eu o encontrei no sal do vento, na luz dourada das tardes, no perfume antigo da chuva sobre a calçada quente, no mar infinito de Cabo Branco que continua olhando o mundo com a mesma serenidade de sempre.

E então compreendo, finalmente, que não se trata de voltar a João Pessoa, porque dela nunca se parte por completo.

Algumas cidades deixam lembranças.

Outras se tornam eternamente a nossa própria memória.

João Pessoa, para mim, é ambas.