João Pessoa e a Farsa do Progresso: Quando a Cidade Afunda na Indiferença e na Corrupção

Photo by Palmarí H. de Lucena
João Pessoa e a Farsa do Progresso: Quando a Cidade Afunda na Indiferença e na Corrupção

Por séculos, nossa cidade se equilibrava entre o azul do mar e o verde das matas, em uma paisagem onde os rios corriam livres e os manguezais protegiam as margens. A chuva caía, e a terra a recebia sem pressa. Mas então veio o “progresso” – aquele que transforma natureza em concreto, raízes em prédios de luxo e promessas em ruínas.

No papel, tudo parecia avanço: ruas asfaltadas, avenidas remodeladas, infraestrutura para um turismo que prometia impulsionar a economia local. O governo municipal, com seu discurso pomposo, alardeava a chegada do desenvolvimento. Mas a verdade que escorria sob os pés dos moradores era outra: uma cidade despreparada para sua própria expansão, sufocada por decisões equivocadas, interesses privados e, claro, corrupção.

Bastou a primeira tempestade para expor a farsa. Sem solo permeável, sem planejamento sustentável, a água da chuva – antes filtrada pela terra e contida pelos manguezais – agora descia como enxurrada furiosa, transformando ruas em rios caudalosos. O mar, vendido como cartão-postal, revidava com marés invadindo calçadões, enquanto as galerias pluviais, mal projetadas e entupidas pela negligência, fracassavam diante do inevitável.

O caos se repetia a cada temporal: casas inundadas, bairros inteiros isolados, esgotos misturados à enxurrada. E a resposta da prefeitura? A velha desculpa do “clima imprevisível”, como se as chuvas de verão fossem um fenômeno inédito e não parte da história da cidade. Como se a culpa não fosse da impermeabilização descontrolada, da falta de drenagem adequada, da especulação imobiliária desenfreada, do turismo predatório promovido pelos “turistocratas” e da exuberância irracional do setor imobiliário.

Ah, a especulação imobiliária! Essa sim nunca conhece crise. À medida que o mar engolia ruas e a lama invadia casas, os edifícios luxuosos seguiam subindo no litoral, os manguezais seguiam sendo aterrados, e as praias, antes espaços coletivos, tornavam-se território de poucos privilegiados. Pescadores eram expulsos, comunidades tradicionais desapareciam, e as raízes culturais da cidade eram soterradas sob o peso do turismo predatório.

Mas talvez o maior crime ambiental esteja nas falésias, símbolos naturais da cidade, e, em particular, na barreira do Cabo Branco, que vêm sendo destruídas pela ganância de poucos e pela conivência do poder público. Obras ilegais avançam sobre suas bases, a erosão se acelera, e os deslizamentos se tornam cada vez mais frequentes. O que antes era um espetáculo da natureza agora é uma ferida aberta, resultado de décadas de descaso, corrupção e acordos escusos entre empresários e políticos.”

E quem fiscaliza? Quem pune? O dinheiro, sempre farto para beneficiar empreiteiras e projetos superfaturados, nunca chega para preservar o que realmente importa. Enquanto milhões desaparecem em contratos duvidosos, a cidade desmorona – seja sob a força das águas ou sob a omissão criminosa de seus gestores.

Os mesmos que vendiam João Pessoa como um paraíso litorâneo entregavam-na à degradação. O lixo dos turistas se acumulava nos recifes, os condomínios de luxo brotavam sobre dunas antes intocadas, e o governo municipal permanecia de braços cruzados, conivente com um modelo de desenvolvimento que beneficia poucos e condena muitos.

E o que resta à população? O medo. Não apenas do céu escurecendo no horizonte, mas da certeza de que cada nova obra mal planejada, cada decisão tomada a portas fechadas, cada negligência disfarçada de progresso empurra a cidade para um colapso inevitável.

João Pessoa, antes um equilíbrio entre a natureza e a história, agora é refém de sua própria indiferença. Quando a próxima tempestade cair, não será apenas a água que cobrará seu preço. Será o passado, o presente e o futuro de uma cidade afogada na incompetência, na corrupção e na destruição imposta por aqueles que deveriam protegê-la.

Palmarí H. de Lucena