Há coisas que uma cidade diz sem precisar falar. Uma delas é a maneira como cuida de suas casas, ruas, calçadas e lugares onde a vida acontece todos os dias. Às vezes, basta uma fachada descascada, uma porta fechada há anos ou uma janela sem vidro para perceber que alguma coisa deixou de funcionar. A cidade continua passando diante daquele imóvel, mas o imóvel já não parece fazer parte dela. É como se tivesse sido esquecido enquanto todos continuavam andando.
É nesse pequeno detalhe que a ideia das chamadas “Janelas Quebradas” encontra uma maneira interessante de olhar para João Pessoa. A teoria foi apresentada por James Q. Wilson e George L. Kelling, em 1982, a partir da ideia de que sinais visíveis de desordem e abandono podem transmitir a sensação de que determinado espaço deixou de ser cuidado e de que certas regras já não são levadas a sério. O experimento realizado anteriormente por Philip Zimbardo, com um automóvel deixado em um bairro de classe alta da Califórnia, tornou-se uma das referências associadas a essa discussão. O texto original parte desse exemplo para pensar a relação entre desordem, abandono e vida urbana.
É preciso, entretanto, não transformar essa teoria em uma explicação fácil para todos os problemas de segurança. Uma janela quebrada não produz, por si só, um criminoso. Um prédio abandonado não significa automaticamente que haverá violência em seu entorno. A questão é mais delicada: interessa perceber o que acontece quando pequenos sinais de abandono permanecem diante de nós durante muito tempo e passam a fazer parte da paisagem como se fossem naturais.
João Pessoa oferece muitos exemplos dessa transformação silenciosa. Há imóveis antigos fechados, casas sem moradores, prédios comerciais sem uso e construções que perderam sua função original. Alguns têm histórias familiares por trás das portas fechadas. Outros aguardam decisões judiciais, investimentos ou novos projetos. Há ainda aqueles que simplesmente envelheceram sem receber a manutenção necessária. O problema não está em serem antigos. Uma construção pode atravessar décadas e continuar viva, bonita e bem cuidada. O problema começa quando a passagem do tempo se transforma em abandono.
Uma janela quebrada parece pouco. Talvez seja mesmo pouco no primeiro dia. O vidro pode ser substituído amanhã, a pintura refeita, a porta voltar a abrir. Mas, quando ninguém faz nada, o pequeno defeito começa a conversar com outros. O mato cresce, a sujeira se acumula, a parede perde a cor, a fachada se deteriora e o imóvel vai se afastando, pouco a pouco, da vida da cidade. O que antes era apenas uma janela quebrada passa a ser o retrato de uma ausência maior.
É assim que o abandono se instala: quase nunca chega fazendo barulho. Começa pequeno, discreto, quase invisível. Uma janela que não foi reparada, uma lâmpada que não foi trocada, uma calçada que deixou de ser consertada. Depois de algum tempo, aquilo que deveria causar estranhamento passa a ser apenas parte da paisagem. O que era exceção torna-se costume.
Esse processo ultrapassa os limites do imóvel. Uma construção abandonada pode comprometer a limpeza, a iluminação e a circulação de pessoas, favorecer ocupações improvisadas, acumular lixo e transmitir ao entorno uma sensação de insegurança. Mais importante ainda, pode produzir nos moradores a impressão de que aquele pedaço da cidade não pertence verdadeiramente a ninguém. O espaço continua público, mas a sensação de cuidado desaparece.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas sobre imóveis e passa a ser sobre gestão urbana. Uma cidade precisa saber o que acontece com seus prédios vazios, há quanto tempo estão fechados, quais apresentam riscos, quais possuem valor histórico e quais podem receber nova função. Também precisa estabelecer responsabilidades e criar condições para que proprietários recuperem seus imóveis, enquanto o poder público cumpre seu papel de fiscalização, preservação e organização do espaço urbano.
Em agosto de 2026, uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado da Paraíba chamou atenção para a situação de imóveis do Centro Histórico de João Pessoa. Foram identificados sinais de abandono e deterioração, como vegetação parasitária e partes de fachadas se desprendendo, situação que ultrapassa a questão estética e pode alcançar a segurança de quem circula pelas ruas e a preservação do patrimônio arquitetônico.
O alerta reforça uma constatação simples: reconhecer o valor histórico de um imóvel é apenas o primeiro passo. Patrimônio não se preserva somente com tombamento, placas ou registros. É preciso mantê-lo vivo, seguro e integrado à cidade. Um prédio histórico precisa continuar existindo não apenas como lembrança do passado, mas como parte do presente.
João Pessoa já possui iniciativas nessa direção. O programa Viva o Centro procura estimular a recuperação e a ocupação de imóveis da região central, inclusive por meio de incentivos fiscais. Segundo informações divulgadas pela Prefeitura, mais de 600 beneficiários já haviam sido contemplados por medidas voltadas à recuperação de edificações antigas e à reocupação habitacional e comercial.
Essas iniciativas mostram que a cidade não está parada diante do problema. Mas revitalizar um centro histórico é uma tarefa contínua. Não basta recuperar uma praça, restaurar uma fachada ou entregar uma grande obra. É preciso cuidar do que parece pequeno, acompanhar o que foi recuperado e impedir que o abandono volte a ocupar o espaço deixado pelo poder público, pelos proprietários e pela comunidade.
Não se trata de imaginar uma cidade congelada no tempo. João Pessoa precisa crescer, mudar, construir e encontrar novos usos para seus espaços. Prédios antigos podem ser reformados, adaptados e ocupados por moradias, comércio, serviços ou atividades culturais. A cidade não precisa escolher entre preservar o passado e construir o futuro. O desafio verdadeiro é não deixar que o presente seja ocupado pelo abandono.
Também seria injusto transformar todo proprietário de imóvel fechado em responsável por um problema urbano. Há situações familiares, econômicas e jurídicas que precisam ser consideradas. Por isso, uma política séria deve combinar fiscalização, responsabilidade, incentivo e diálogo. A cidade não pode simplesmente apontar o dedo; precisa criar caminhos para que o cuidado seja possível e exigível.
É justamente aí que a metáfora das janelas quebradas pode ser útil. Uma calçada danificada, uma fachada sem manutenção, um imóvel vazio ou uma praça sem cuidado podem parecer problemas pequenos quando observados separadamente. Juntos, porém, contam outra história: a de uma cidade que precisa decidir quais espaços quer preservar, quais quer transformar e quais não pode mais deixar à própria sorte.
As cidades não são feitas apenas de avenidas, prédios e monumentos. São feitas daquilo que encontramos quando saímos de casa: uma calçada por onde conseguimos caminhar, uma praça onde podemos permanecer, uma fachada que reconhecemos depois de muitos anos, uma porta que continua aberta, uma janela inteira.
Cuidar dessas coisas pequenas não resolve sozinho os problemas de segurança, habitação, desigualdade ou abandono urbano. Mas revela uma escolha: a de não aceitar a deterioração como destino. Nesse sentido, a Teoria das Janelas Quebradas pode servir menos como uma fórmula sobre criminalidade e mais como um convite à atenção.
Uma cidade começa a perder alguma coisa quando seus moradores se acostumam ao que antes parecia inaceitável. Quando uma fachada em ruínas deixa de chamar atenção, um terreno abandonado passa a ser visto como parte permanente da paisagem ou uma calçada ruim se torna apenas mais uma dificuldade no caminho. O abandono se torna mais profundo quando deixa de incomodar.
Por isso, olhar para as janelas quebradas de João Pessoa é também olhar para nossa capacidade de perceber o que está desaparecendo diante dos nossos olhos. Uma janela pode revelar um imóvel; um imóvel pode revelar uma rua; uma rua pode revelar um bairro. E um conjunto de ruas pode revelar a maneira como uma cidade trata sua própria memória e seu próprio presente.
João Pessoa não precisa esconder as marcas do tempo. Elas fazem parte de sua história. O que precisa ser evitado é que essas marcas se transformem em abandono permanente. Há uma diferença entre uma parede envelhecida e uma parede esquecida; entre um prédio antigo e um prédio abandonado; entre uma janela marcada pelos anos e outra que permanece quebrada porque ninguém mais se importa.
No fim, talvez a Teoria das Janelas Quebradas diga menos sobre vidro e mais sobre atenção. Uma cidade começa a recuperar alguma coisa quando volta a enxergar aquilo que todos haviam aprendido a ignorar.
Uma janela quebrada é apenas uma janela quebrada.
Até que alguém decida que ela não merece ser consertada.
E talvez seja justamente nesse momento, silencioso e quase imperceptível, que uma cidade comece a perder um pouco de si mesma.
Palmarí H. de Lucena