Jaguaribe e a política esquecida da festa

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Jaguaribe e a política esquecida da festa

Jaguaribe nunca foi apenas um bairro. Foi, durante décadas, um espaço de reconhecimento — desses em que as pessoas não se cruzam, se identificam. A rua funcionava como sala, a calçada como extensão da casa, e a festa como linguagem comum. O que hoje se chama memória afetiva era, então, vida cotidiana organizada pelo convívio.

No centro dessa experiência estava Metusael Dias, Rei Momo por aclamação, coroado menino e mantido rei por afeto. Em fevereiro, a Avenida Conceição mudava de estatuto: deixava de ser via de passagem para se tornar palco. Os blocos não desfilavam; compareciam. O carnaval não acontecia apesar do bairro, mas por causa dele.

Entre esses blocos, os Azes de Jaguaribe afirmavam território. Não eram excursão festiva nem atração para espectadores externos. Eram a própria comunidade em movimento, com estandarte erguido e orgulho de origem. A festa, ali, não era espetáculo: era autorretrato.

Esse excesso tinha forma porque havia quem lhe desse rigor. Creuza Pires, carnavalesca no sentido pleno, entendia que fantasia também é linguagem. Onde muitos viam improviso, ela via estrutura. Sua atuação lembrava que até a alegria precisa de inteligência para não se dissolver.

Jaguaribe, porém, não se explicava apenas pelos protagonistas. Havia figuras laterais, decisivas exatamente por não buscarem centro. Murilo da Mortuária era uma delas. Presença constante, atravessava o ano inteiro com a naturalidade de quem faz parte da paisagem humana. Sua figura lembrava que vida e morte coexistiam no mesmo quarteirão — e que o carnaval não negava essa consciência; apenas a suspendia por alguns dias.

Enquanto a rua se enchia de som, havia quem operasse no contraponto do silêncio. O poeta Radiel Cavalcanti não competia com a festa; observava-a. Onde havia excesso, recolhia detalhe. Onde havia grito, fixava gesto. Sua poesia não monumentalizava o bairro — tornava-o legível por dentro. Não por acaso, Radiel se esmerava em declamações à beira de túmulos: ali, sem aplauso garantido, a palavra precisava sustentar-se sozinha. O carnaval celebrava o agora; Radiel cuidava do depois.

Entre a rua e o cemitério havia ainda a casa. A festa de Seu Rosendo não exigia convite nem aparato. Bastava a porta aberta. Ali, o bairro virava casa. A celebração não exibia; acolhia. Era nesse espaço íntimo que a palavra encontrava escuta e a festa se tornava permanência.

Havia também quem transformasse a rotina em pequena encenação cotidiana. O Soldado 1515, elegante em uniforme customizado, perfume escolhido e ares de conquistador, dobrava o símbolo da autoridade em estilo pessoal. Não intimidava — encantava. Patrulhava mais a memória afetiva do que as ruas, lembrando que o bairro sabia apropriar-se até do que lhe vinha de fora.

A perda desse carnaval — e dessas festas de bairro — não foi simples efeito do tempo. Foi uma opção política travestida de modernização. Ao deslocar a festa para cenários padronizados, a cidade trocou pertencimento por fluxo, comunidade por consumo, memória por evento. O carnaval deixou de ser política cultural, no sentido forte do termo, para virar logística, patrocínio e controle. O resultado é visível: bairros que já produziram seus próprios símbolos hoje assistem de fora, como plateia.

Recuperar o carnaval de bairro não é nostalgia. É reconstrução de cidadania cultural. Porque quando a festa perde o chão onde nasceu, a cidade inteira empobrece — não apenas de alegria, mas de sentido.

Por Palmarí H. de Lucena