Interiorizar a cultura: um caminho de futuro

Interiorizar a cultura: um caminho de futuro

A cultura, quando transborda das capitais e zonas costeiras, ganha outros contornos no interior. Foi o que testemunhamos em Bananeiras, Alagoa Grande e Dona Inês, cidades que revelam, cada uma a seu modo, a potência da interiorização de eventos culturais. Em Alagoa Grande, o lançamento do livro Alagoa Grande – Sua História reuniu uma multidão diversa, transformando um ato literário em exercício de cidadania cultural. Em Bananeiras, a garoa suave da serra acompanhava turistas que buscavam mais do que o clima ameno: encontravam também a riqueza de suas ofertas culturais, a união entre encanto natural e humano. Já em Dona Inês, um pequeno museu deu abrigo a um lançamento literário durante os Caminhos do Frio, prova de que a simplicidade pode ser palco para experiências de grande significado.

Esses momentos não se isolam: compõem um mosaico maior em que a cultura se afirma como motor de desenvolvimento, identidade e pertencimento. Ao lado das manifestações populares, destaca-se a valorização das tradições quilombolas. Em comunidades como Caiana dos Crioulos, o artesanato, a música e a memória coletiva resistem e florescem, pedindo reconhecimento e apoio. É uma herança viva, que não deve ser soterrada pelo ritmo apressado da modernidade, mas integrada como riqueza essencial ao turismo cultural.

Cidades como Bananeiras, Itabaiana, Pilar, Sapé, Areia, Caiçara, Araruna, São João do Cariri, Fagundes, Sousa, Pombal e Serraria são exemplos das possibilidades à espera de investimento e incentivo. Seus casarões, igrejas e praças clamam por restauração; seus museus, por fomento; suas estradas, por melhores acessos. O patrimônio histórico, lado a lado com as belezas naturais, pede integração em roteiros que unam turismo, cultura e sustentabilidade. Afinal, cada evento cultural movimenta pousadas, restaurantes, artesanato e transporte, ativando um ciclo virtuoso que transcende o simples entretenimento.

Roteiros históricos, religiosos e sítios arqueológicos oferecem vasto campo para a criação de tours temáticos, enriquecidos pela mediação de historiadores locais. Episódios como a Quebra-Quilos ou a Revolta do Ronca podem se transformar em experiências pedagógicas e afetivas, devolvendo às cidades do interior a grandeza de seu protagonismo na história da Paraíba.

Nesse esforço, cumpre ao Estado, em parceria com prefeituras e sociedade civil, assumir a função de articulador. É papel do poder público fomentar lançamentos de livros, apresentações musicais e teatrais, oficinas de dança e literatura, incentivar a música popular local e abrir espaço para vivências que democratizem o acesso à arte. Aqui, ganha relevância o fortalecimento das bibliotecas e museus municipais, que podem se tornar verdadeiros faróis de cultura, espaços de leitura e guardiãs da memória histórica de cada cidade. Quando articuladas a instituições como o Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba, a Academia Paraibana de Letras e suas congêneres municipais, essas instituições se transformam em polos vivos de conhecimento e difusão cultural.

A Paraíba já demonstra que esse caminho é possível. Resta consolidar a interiorização da cultura como eixo estruturante do desenvolvimento das pequenas cidades, para que cada evento seja mais do que uma celebração passageira: seja a reafirmação de que a cultura é cidadania, memória e futuro compartilhado.

Por Palmarí H.de Lucena