Infâncias em trânsito

Infâncias em trânsito

Há livros que não envelhecem porque não pertencem apenas ao seu tempo. Cesário Alvim 27, de Abelardo Jurema, é um deles. À primeira vista, trata-se da memória de um endereço e de um exílio político brasileiro. Mais fundo, porém, o livro fala de crianças — aquelas que crescem sob a instabilidade, aprendendo cedo demais que o lar pode ser provisório e que a normalidade depende de decisões tomadas muito longe delas.

O exílio ali não se apresenta como gesto heroico nem como abstração ideológica. Ele surge no cotidiano: na mala sempre pronta, no cuidado excessivo com as palavras, na sensação persistente de estar de passagem. O sofrimento infantil não é narrado como denúncia explícita, mas como atmosfera. E é justamente essa sobriedade que confere ao livro uma força que atravessa décadas.

Essa experiência não se limita ao exílio político do século passado. Ela reaparece hoje em múltiplas formas. Crianças deportadas dos Estados Unidos, crianças que fogem de guerras na Ucrânia, no Oriente Médio ou na África, crianças empurradas para fora de seus países por perseguições étnicas, colapsos econômicos ou desastres climáticos compartilham um traço comum: não escolheram partir, mas arcam com as consequências mais duras da partida.

O debate público costuma tratar essas situações como crises migratórias, fluxos irregulares ou desafios à soberania nacional. São categorias administrativas, necessárias ao funcionamento do Estado. O problema começa quando elas se tornam linguagem única, eclipsando a dimensão humana do deslocamento forçado. Quando a infância entra nesse cálculo apenas como estatística, algo essencial se perde.

A criança em exílio vive uma ruptura dupla. Perde o território físico — a casa, a escola, o bairro — e perde também o território simbólico: a continuidade da língua, dos vínculos, das referências afetivas. Mesmo quando acolhida materialmente, carrega uma fratura invisível. A instabilidade prolongada compromete a construção da identidade, da confiança e da expectativa de futuro. Não é um dano colateral passageiro; é uma marca estrutural.

Cesário Alvim 27 ajuda a compreender esse processo sem recorrer a slogans. O livro mostra que o exílio não termina com a travessia da fronteira nem com o fim formal da perseguição. Ele se prolonga na memória e no modo como essas crianças, já adultas, passam a se relacionar com o mundo. Ao fazer isso, a obra ilumina uma verdade desconfortável: políticas que tratam o deslocamento como instrumento de punição ou dissuasão acabam transferindo sua brutalidade para quem não tem meios de se defender.

A história não costuma absolver Estados que normalizam a ruptura da infância em nome da ordem, da segurança ou da conveniência política. O julgamento pode demorar, mas ele chega. E, quando chega, são essas crianças — ontem exiladas, hoje deportadas, sempre vulneráveis — que se tornam o critério mais severo da falência moral de uma época.

Por Palmarí H. de Lucena