Periodicamente ressurge, no debate público sobre o Centro histórico da cidade, uma proposta sedutora: a instalação de um hotel cinco estrelas como âncora de revitalização urbana. A ideia, por vezes associada à possibilidade de incentivos públicos e ao eventual interesse de grandes grupos hoteleiros internacionais, é apresentada como solução capaz de devolver dinamismo econômico a uma área que há décadas enfrenta perda de vitalidade.
À primeira vista, o raciocínio parece plausível. Um empreendimento hoteleiro de alto padrão poderia ampliar a presença turística no Centro, estimular investimentos privados, valorizar o patrimônio arquitetônico e impulsionar atividades culturais e comerciais. Em várias cidades do mundo, hotéis de luxo desempenharam papel relevante em processos de recuperação de áreas históricas degradadas.
A questão central, contudo, não está no potencial do hotel em si, mas nas condições urbanas que o cercariam.
Empreendimentos hoteleiros de padrão internacional dependem de um ambiente urbano funcional e previsível. Eles prosperam em cidades onde mobilidade, segurança, manutenção do espaço público e qualidade da paisagem urbana formam um conjunto coerente. Além disso, hóspedes desse perfil costumam buscar uma experiência urbana integrada: restaurantes, equipamentos culturais, comércio qualificado e circulação segura a pé fazem parte do pacote de atratividade.
Quando se observa a situação atual de parte do Centro da cidade, surgem dúvidas legítimas quanto à existência dessas condições.
A deterioração de edifícios históricos, a presença de imóveis abandonados, o emaranhado de fiação aérea, a ocupação irregular de calçadas e a manutenção urbana irregular compõem um cenário que ainda está distante do ambiente urbano tipicamente associado a investimentos hoteleiros de luxo. Em muitos trechos, o Centro transmite sinais claros de fragilidade administrativa e descontinuidade de políticas públicas.
Não se trata apenas de aparência urbana. Trata-se de confiança.
Investidores internacionais analisam cuidadosamente o contexto institucional e urbano antes de decidir pela implantação de empreendimentos de grande porte. A avaliação não se limita ao imóvel ou ao terreno disponível. Ela inclui a estabilidade administrativa da cidade, a segurança jurídica dos investimentos, a consistência do planejamento urbano e a capacidade do poder público de manter padrões adequados de infraestrutura e serviços.
Nesse sentido, a pergunta que naturalmente se impõe é simples: o Centro da cidade reúne hoje as condições necessárias para sustentar um hotel cinco estrelas?
A resposta, ao menos no momento, parece exigir prudência.
Experiências internacionais mostram que hotéis de alto padrão geralmente surgem como resultado de processos mais amplos de revitalização urbana. Em cidades como Lisboa, Porto, Cartagena ou Salvador, a chegada de grandes empreendimentos hoteleiros ocorreu após programas consistentes de recuperação patrimonial, requalificação de espaços públicos e reorganização do tecido econômico das áreas históricas.
Em outras palavras, o hotel foi consequência da revitalização — não o ponto de partida.
Quando o poder público passa a apresentar um hotel de luxo como solução capaz de, sozinho, reverter décadas de abandono urbano, corre-se o risco de simplificar um problema estrutural complexo. Revitalizar um centro histórico exige políticas urbanas integradas, continuidade administrativa e investimentos persistentes em infraestrutura, segurança, mobilidade e preservação patrimonial.
Sem essas condições, o risco é transformar uma ideia potencialmente interessante em mera promessa política.
Isso não significa que a instalação de um hotel de alto padrão no Centro deva ser descartada. Pelo contrário. O Centro possui atributos relevantes: localização estratégica, patrimônio arquitetônico significativo e valor simbólico para a identidade da cidade. Esses fatores podem, em determinadas circunstâncias, tornar a área atrativa para investimentos turísticos.
Mas transformar potencial em realidade exige preparação.
Antes de imaginar um hotel cinco estrelas como motor de transformação urbana, talvez seja necessário reconstruir as bases que tornam esse tipo de investimento viável. Recuperar o espaço público, restaurar edifícios históricos, reorganizar o comércio, melhorar a infraestrutura e garantir manutenção urbana consistente são etapas fundamentais nesse processo.
Sem esse esforço prévio, o hotel corre o risco de permanecer apenas como uma imagem sedutora em apresentações e discursos — mais próxima da retórica política do que da realidade urbana.
O verdadeiro desafio, afinal, não é atrair um hotel de luxo para o Centro.
É tornar o Centro novamente um lugar onde investimentos de longo prazo façam sentido.
Por Palmarí H. de Lucena