Será que o Brasil não tem assunto mais relevante do que o eterno Fla-Flu entre Bolsonaro, seus filhos e seus algozes — reais ou imaginários? Todos os dias, nossas telas são ocupadas por esse enredo cansado, recheado de ameaças repetidas, possíveis ou inventadas, como se o país inteiro fosse condenado a assistir à mesma novela sem fim. A imprensa insiste no espetáculo, e a política se mantém aprisionada nessa dramaturgia sem saída.
Enquanto isso, o Congresso se apequena. É doloroso reconhecer a mediocridade de muitos parlamentares: incapazes de legislar com independência e competência, preferem atuar como representantes sindicais de suas corporações ou defensores de privilégios setoriais. Não raramente, transformam-se em usuários vorazes das benesses do erário, comportando-se como novos ricos em festa permanente ou como fanfarrões de ocasião. A casa que deveria ser o centro do debate democrático degrada-se em palco de conveniências pessoais e blindagens contra qualquer investigação.
Nesse ambiente, a vida real do país — marcada por filas nos hospitais, escolas em ruínas, insegurança nas ruas e transporte público precário — desaparece do radar. O que deveria ser prioridade dá lugar ao ruído da disputa política, que se impõe como espetáculo diário. O Brasil vira plateia de si mesmo, encenando uma tragédia em que a sociedade não passa de figurante.
A insistência nesse roteiro tem custos profundos: corrói a confiança nas instituições, dissemina o cinismo e alimenta a descrença coletiva. Muitos concluem que não vale a pena se engajar, já que o que move os parlamentares não é o interesse público, mas a autopreservação de seus privilégios. E, assim, o país segue paralisado, discutindo sempre as mesmas figuras e os mesmos fantasmas.
É hora de virar o disco. Não se trata de ignorar o que acontece no campo político, mas de recusar a lógica de que o Brasil seja apenas a novela de uma família ou o palco da mediocridade parlamentar. A nação é maior do que isso. É urgente falar de educação, saúde, emprego, inovação, meio ambiente, cultura, habitação e mobilidade. É urgente recuperar o debate que toca a vida de todos.
O desafio não está apenas na esfera política. Também na economia persiste o círculo vicioso da dependência. O Brasil possui liderança agrícola, mas segue incapaz de transformá-la em soberania econômica. Falta ousadia para investir em valor agregado, inovação tecnológica e diplomacia estratégica. Em vez de dar o salto, o país continua servindo ao mundo um café com gosto de submissão, um suco de laranja adoçado com vulnerabilidade e uma carne marcada pela cicatriz da dependência.
A situação se agrava porque os mesmos parlamentares que deveriam discutir caminhos de emancipação econômica optam por ampliar subsídios ao agronegócio, sempre na forma de renúncia fiscal e crédito fácil. Agem como síndicos de corporações, e não como representantes da sociedade. Assim, o Brasil permanece refém de sua condição de exportador de matérias-primas, sujeito aos caprichos e humores de Washington e Bruxelas, como se a história econômica estivesse condenada a repetir-se indefinidamente.
Trocar o disco, nesse caso, não é metáfora leve. É exigência de maturidade democrática e econômica: deslocar o olhar para além das disputas familiares e corporativas, cobrar do Congresso mais do que blindagens e benefícios setoriais, exigir da imprensa que supere a repetição hipnótica. Só assim o Brasil poderá reencontrar uma música menos ruidosa, mais verdadeira — e ensaiar, enfim, uma coreografia para o futuro.
Por Palmarí H. de Lucena