Hiroshima: O Espectro e a Flor

Hiroshima: O Espectro e a Flor

No silêncio do Parque da Paz, apenas o sussurro das folhas de ginkgo rompe a calma. Diante do esqueleto retorcido do Atomic Bomb Dome, um grupo de estudantes, imóveis, contempla a cicatriz metálica da guerra. À sua volta, gralhas parecem velar em luto constante, enquanto turistas capturam selfies, desatentos à magnitude da tragédia que a cúpula testemunha.

O relógio do museu está eternamente parado às 8h15. Dentro das vitrines, relíquias da catástrofe — um uniforme escolar chamuscado, uma garrafa grotescamente deformada, a réplica de uma sombra humana fixada no granito pela explosão. Um visitante estrangeiro, ao deparar-se com o “menino do triciclo”, oculta o rosto entre as mãos, enquanto um guia narra baixinho: “Kazuo tinha três anos quando seu pai o enterrou com seu brinquedo predileto.”

Sob o arco do Cenotáfio Memorial, chamas dançam uma oração silenciosa. Um idoso se curva em respeito, seus lábios murmurando nomes de almas perdidas naquele fatídico agosto. Atrás dele, a indiferença dos turistas, cujas lentes falham em capturar a gravidade dos 220 mil nomes gravados ali.

Passeando pelo Jardim Shukkeien, tropeço numa placa discreta: “Aqui, centenas foram consumidas pelas chamas, na água deste lago.” Carpas deslizam, alheias, entre as sombras dos pinheiros, enquanto um casal em trajes tradicionais posa sobre uma ponte curva, a vida insurgindo-se sobre a morte com teimosia.

Notícias de novos testes nucleares na Coreia do Norte ressoam como ecos distantes. O trem-bala para Tóquio anuncia sua iminente partida. Hiroshima persiste, não como um mero relicário do passado, mas como um espelho do presente, refletindo as sombras de novas ameaças.

A cidade questiona: quantas sombras ainda precisaremos eternizar antes que o mundo aprenda? Quantos tsurus de papel serão necessários para enterrar os ídolos da destruição? O rio Ōta segue seu curso, carregando memórias e esquecimentos. Mas a cúpula de Hiroshima resiste, como um útero vazio de um pesadelo atômico, um lembrete inquietante de que o horror nuclear não é um capítulo encerrado na história da humanidade.

Hoje, à medida que a proliferação nuclear se infiltra pelas frestas do medo e da omissão, a fragilidade dos tratados internacionais revela o mundo à beira de um abismo renovado. Governos autoritários e democracias em crise manipulam arsenais no véu da opacidade, enquanto a retórica de guerra ecoa e a diplomacia se atrofia.

A erosão da confiança e a relativização dos pactos de paz tornam nosso planeta um refém dos caprichos unilaterais. Um único ato impensado pode, em instantes, reavivar as feridas abertas de Hiroshima, que testemunha: a paz é uma conquista diária, frágil como as luzes do último bonde refletindo nas águas escuras do rio, fugazes e tristemente belas.

A flor de Hiroshima sobrevive ao espectro da destruição, mas somente enquanto houver memória — e uma responsabilidade compartilhada.

Palmarí H. de Lucena