Hamlet no Planalto: Estreia em 2026

Hamlet no Planalto: Estreia em 2026

Na arena de mármore e microfones da Câmara dos Deputados, três parlamentares paraibanos entram em cena como personagens de uma tragédia sem catarse. O líder do governo abre a boca e dela escapa um ar quente e espesso: sua verbosidade parece apertar-lhe a própria gravata. Ele fala, fala, e o discurso incha como fumaça num salão fechado. Promessas se empilham em nuvens artificiais e anunciam medidas populares como quem acende incenso em incêndio — perfuma o ar, mas não apaga o fogo.

Na outra extremidade do palco, o líder da oposição não debate — investe. Troca o diálogo pela investida, a escuta pelo berro, a proposta pela pedrada verbal. Ataca o Executivo e o Judiciário como se fossem inimigos a abater, não pilares da mesma casa. Sua política não é ponte: é trincheira. Seu vocabulário não constrói: incendeia. Defende culpados por atos antidemocráticos como se fossem heróis de uma fábula torta e veste vandalismo com capa de epopeia. É a retórica de Cláudio sem coroa: ambiciosa, lisa, venenosa — e sempre pronta a chamar o crime de virtude.

O que se vê é analfabetismo democrático em estado bruto. Quem agride as instituições por esporte mostra que não as compreende — e quem não as compreende, as corrói. O líder da oposição confunde conflito com grandeza, fúria com coragem, desinformação com virtude. Sua política fareja, morde e rosna. É política de caninos.

Mas é no centro que a tragédia respira.

O presidente da Câmara não é árbitro: é Hamlet em Brasília.
Príncipe da irresolução e herdeiro da prudência deformada.
Caminha pelo plenário como quem atravessa Elsinore, ouvindo fantasmas de acordos sussurrarem verdades que nunca chegam ao microfone. Seu martelo é o crânio de Yorick, pesado de ironia e inútil de ação.

Seus pensamentos são solilóquios:
“Decido ou protelo?”
“Governo ou finjo?”
“Marco a pauta ou arrisco o destino?”
“Sou presidente ou figurante?”

Como em Shakespeare, a consciência paralisa. Mas aqui a dúvida não nasce da ética — nasce do cálculo.

Há Polônios nos corredores, distribuindo conselhos vazios com solenidade de mármore: “Seja fiel a si mesmo”, repetem, enquanto vendem atalhos a quem pagar melhor. Há Ofélias nas galerias: a democracia, frágil e silenciada, enlouquece em silêncio, afogada não em riachos, mas em decretos, notas oficiais e sessões adiadas.

E há Cláudios sem trono, administrando culpas por baixo do tapete e oferecendo banquetes públicos enquanto escondem o veneno nas taças privadas.

Enquanto Hamlet adia, a Dinamarca apodrece — aqui chamada Brasil.

Ao redor, a plateia não é plateia: é bestiário.
Hienas riem nas redes.
Leões exigem cabeças.
O parlamento vira jaula; o debate, poligono de caça.

Nos subterrâneos de Elsinore-Brasília corre o veneno mais discreto: a tentativa de anistiar golpistas. Chamada de “pacificação”. Mas não cura — entorpece. Não reconcilia — esconde. É perdão sem verdade, é concórdia sem justiça.

O líder do governo promete à luz dos refletores e negocia no breu.
O líder da oposição absolve no grito e acusa por conveniência.
Hamlet arquiva o tempo em gavetas regimentais.

Ninguém mata o rei.
O rei apodrece sem lâmina.

Ninguém rasga a cortina.
A cortina apodrece sozinha.

A tragédia já não é o sangue —
é a paralisia.

E o quarto personagem nunca entra em cena: o interesse público.
Ele jaz fora do palco — sem flores, sem epitáfio.

Porque quando Hamlet governa, a história hesita.
Quando Cláudios discursam, a verdade se esconde.
Quando Polônios aconselham, a essência se perde.
E quando Ofélia enlouquece, a democracia afoga.

Por Palmarí H. de Lucena