Guia Prático do Entreguismo Ilustrado

Guia Prático do Entreguismo Ilustrado

Há uma tradição nacional pouco celebrada nos livros didáticos, mas muito praticada nos gabinetes: a arte refinada de abrir mão antes que alguém peça. Não é covardia — é método. Não é erro — é política pública em versão minimalista.

O entreguista moderno não grita, não quebra vidraça, não se exalta. Ele sorri em inglês técnico, usa PowerPoint, chama dependência de “inserção competitiva” e acredita sinceramente que soberania é coisa de país inseguro. País maduro, segundo ele, vende o almoço para comprar o jantar — importado.

A torpeza histórica brasileira tem essa elegância discreta: não aparece como traição, mas como eficiência. Não se diz “renúncia”, diz-se “desinvestimento”. Não se fala em perder capacidade, mas em “foco no core business”, como se um país fosse uma startup em fase de saída.

Tudo o que dá trabalho vira atraso. Planejar é ideológico. Regular é soviético. Proteger é provinciano. Investir em ciência é luxo. O futuro? Esse pode ser terceirizado com prazo indeterminado e juros flutuantes.

Há também o fetiche do espelho externo. Se alguém lá fora elogia, está certo. Se critica, é inveja. Se ignora, melhor ainda — sinal de que estamos “no caminho certo”. O importante é parecer moderno, mesmo que a modernidade consista em exportar o que não se recompõe e importar o que não se domina.

O entreguismo galopante tem pressa. Quer vender antes que alguém faça conta. Quer desmontar antes que alguém pergunte “por quê?”. Tudo precisa ser rápido, irreversível e tecnicamente inevitável. O debate é atraso; a história, inconveniente.

E quando alguém ousa lembrar que países desenvolvidos fizeram exatamente o oposto do que está sendo feito aqui, a resposta vem pronta: “mas o mundo mudou”. Mudou tanto que só nós não podemos planejar, proteger ou negociar. Coincidência curiosa.

No final, a torpeza histórica se revela em sua forma mais pura: chamar submissão de maturidade, dependência de escolha e improviso de virtude. É um patriotismo de liquidação, com bandeira na vitrine e o estoque inteiro à venda.

A sátira, infelizmente, não exagera. Apenas descreve.