Galeria de Verdades Convenientes

Galeria de Verdades Convenientes

Há quem trate a história como um espelho, refletindo rugas, cicatrizes e até manchas de vergonha. Mas há também quem prefira pendurá-la na parede como um retrato retocado, moldura dourada, iluminação calculada e placa na porta: “Aprecie apenas o que lhe for permitido ver”.

No universo de Donald Trump, essa curadoria seletiva é regra. O revisionismo trumpiano não se limita a distorcer datas e eventos: ele constrói uma narrativa cenográfica, onde os fatos inconvenientes são expulsos da sala e substituídos por versões polidas, seguras e ideologicamente obedientes. O ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, por exemplo, deixa de ser uma tentativa violenta de reverter o resultado das urnas para virar um desfile de “patriotas injustamente perseguidos”.

Essa técnica é velha conhecida nos Estados Unidos. A omissão da escravidão como espinha dorsal da economia e da política americanas é centenária. Por décadas, livros didáticos trataram a Guerra Civil como “disputa entre estados”, evitando reconhecer que a questão central era o direito de manter seres humanos como propriedade. O mesmo apagamento ocorreu com massacres indígenas, descritos como “conflitos”, com o Massacre de Tulsa (1921), silenciado por décadas, e com as leis Jim Crow, reduzidas a “políticas regionais” em vez de denunciadas como o apartheid que foram.

O revisionismo atual, no entanto, ganhou nova vitrine: a guerra cultural contra currículos escolares e museus. Estados como a Flórida revisaram diretrizes para ensinar que a escravidão teria proporcionado “habilidades úteis” aos escravizados. No Texas, há propostas para trocar a palavra “escravidão” por “migração forçada de trabalhadores africanos”. Museus e centros culturais passaram a ser alvo de devassas ideológicas, com pressão para retirar exposições sobre racismo, violência policial, genocídio indígena ou direitos LGBTQIA+. O que sobra é a “arte segura”: bandeiras, retratos heroicos, maquetes patrióticas — uma estética de Estado que não provoca, apenas confirma.

Se antes a arte era janela para o mundo, agora é vitrine de loja de antiguidades, com cada peça exibida sob o selo: “Aprovado pela Comissão de Nostalgia Patriótica”. Não é curadoria, é decoração ideológica. E, como em regimes autoritários que patrocinavam “arte do povo” para legitimar o líder, o objetivo não é preservar a memória, mas moldá-la para servir ao poder.

O perigo não está apenas no que se remove da parede ou do livro, mas no que se instala em seu lugar. Cada obra retirada, cada capítulo apagado, cada sala “neutralizada” deixa um vazio que logo é preenchido por versões domesticadas da realidade — uma história de vitrine, feita para agradar ao olhar, não para confrontar a consciência. Assim, a memória de um povo, como um museu refeito para propaganda, perde seu caráter vivo e se transforma em cenário. E um cenário, por mais bonito e bem iluminado que seja, nunca substitui a vida que se passa fora dele — justamente onde a história real acontece.

Por Palmarí H de Lucena