As manhãs de 7 de setembro tinham cheiro de graxa de sapato e de tecido recém-engomado. As fardas novas eram orgulho e, ao mesmo tempo, peso. Não havia luxo, às vezes nem café da manhã, mas havia a certeza de que, ao lado dos colegas, marchar pelas ruas era um rito de passagem. O coração batia no ritmo dos bombos e taróis, e o sargento — transformado em maestro civil — afinava o compasso da juventude. Quando o desfile se aproximava do centro da cidade, não éramos soldados, éramos futuros cidadãos, recitando com os pés as estrofes do Hino Nacional.
Era um espetáculo de disciplina, mas também de esperança. As freiras cuidavam da postura como se fosse catecismo, e alguns colégios ousavam inserir balizas, cujas saias curtas escandalizavam os mais conservadores. Mas nada disso importava. A festa era coletiva, o aplauso vinha fácil, e o patriotismo parecia simples: amar o país sem pedir nada em troca, apenas oferecendo a energia da juventude.
Hoje, os desfiles ainda existem, mas a cena se contaminou. Muitos veem neles apenas encenações de poder, vitrines de vaidade ou palanques improvisados. O patriotismo, antes traduzido no suor dos adolescentes e no olhar orgulhoso das famílias, tornou-se bandeira de disputas políticas. Confunde-se a verdadeira fidelidade aos valores do país — liberdade, justiça, fraternidade — com a submissão aos caprichos de políticos que negociam nossa soberania como se fosse moeda barata.
Não faltam os que preferem reduzir o Brasil ao velho papel de fornecedor de matérias-primas e eterno comprador de bugigangas e brinquedos eletrônicos, como se o futuro da nação estivesse condenado a essa dependência. Mas patriotismo não é ecoar o discurso de quem não acredita no nosso destino, e sim afirmar, passo a passo, que o país pode ser muito mais do que essa caricatura.
Naquele tempo, mesmo sem compreender de geopolítica ou de Estado, marchávamos acreditando que o país se construía com disciplina, amizade e futuro. Hoje, vemos o patriotismo sequestrado por slogans e divisões, quando deveria ser justamente a cola que une um povo.
Talvez o que falte não seja a farda engomada ou o sapato engraxado, mas o espírito de comunidade que fazia da rua um palco de pertencimento. O patriotismo verdadeiro não está na rigidez do passo nem no brilho das botas; está na capacidade de caminhar juntos, sem medo de olhar para os lados e reconhecer no outro o mesmo desejo de país.
Por Palmarí H. de Lucena