A estrada era uma sequência interminável de desafios e fascínios. Competíamos com caminhões pesados, tratores mastodônticos e carros locais que pareciam seguir rotas invisíveis, guiados mais pelo instinto do que por qualquer mapa. O pavimento esburacado exigia paciência, e os sinais em cirílico, indecifráveis para nós, tornavam o caminho uma travessia por outro alfabeto — uma aventura entre o mistério e a confusão.
Parávamos com frequência, pedindo ajuda a moradores sempre dispostos, mas logo víamos que a comunicação tinha suas próprias regras. A inclinação da cabeça para dizer “não” e o balançar lateral para o “sim” pareciam contrariar a lógica universal. Era como se o país tivesse decidido reinventar o gesto e, com ele, o próprio significado da viagem. E lá vinham de novo as palavras mágicas — “Varvete naprovo!” — siga em frente, como se curvas não existissem no mapa búlgaro.
Depois de horas errando, um policial de semblante calmo nos apontou a direção correta: rumo ao Leste, pela rodovia E-80. Estávamos, ironicamente, a sete horas a Oeste de Sofia, nosso destino. Chegamos ao Balkan Hotel já de madrugada. O edifício, de aparência cansada, exalava o odor de cigarros russos impregnado em cada cortina. Nas paredes, o tempo tinha deixado marcas profundas; nos móveis, a melancolia dos anos 1970 ainda respirava. O recepcionista, sonolento e burocrático, completou o check-in com gestos automáticos, entregando uma chave de bronze que parecia ter atravessado décadas.
Logo surgiram três babushkas convocadas por um toque de campainha. Seguiram-nos até o quarto, executando uma limpeza meticulosa, quase ritualística, como se purificassem o espaço de antigas memórias. Quando terminaram, apenas um aceno contido e um “Blagodaria” — sem emoção, mas com a dignidade de quem cumpre o dever até o fim.
Nos dias seguintes, Sofia se revelou em camadas. Começamos pela Catedral Alexander Nevski, onde um coro de vozes operísticas enchia o espaço de ressonâncias sagradas. Os ícones dourados, pintados com devoção e paciência, pareciam iluminar os séculos. No Teatro Nacional Ivan Vazov, mencionamos a soprano Ghena Dimitrova. Bastou o nome para que os olhos dos locais brilhassem. A ópera, ali, não era apenas arte: era orgulho nacional. Ghena e o baixo Nicolai Ghiaurov eram tratados como mitos de um povo que ainda cultivava o respeito por suas raízes proletárias e culturais.
De Sofia partimos rumo ao sul, atravessando colinas cobertas de pinheiros e pequenas aldeias de telhados vermelhos. No caminho, as torres douradas da Igreja de Boyana surgiram ao longe — reluzentes ao sol, pareciam um farol espiritual no sopé da montanha. A luz refletida em suas cúpulas era quase mística, como se cada raio de ouro contivesse uma profecia. Os afrescos medievais de Cristo e dos santos, pintados há mais de setecentos anos, pareciam observar silenciosamente os viajantes, lembrando que a fé na Bulgária tem a textura do tempo e a paciência da pedra. Boyana, com suas torres e seu silêncio, era um oráculo. Ali, entre a terra e o céu, parecia possível ouvir o coração antigo dos Balcãs.
Foi então que surgiu Hassan — um “pomak”, como chamam os muçulmanos búlgaros, muitas vezes com desdém. Discriminado e ao mesmo tempo astuto, ofereceu-se como guia. Seu conhecimento era vasto e seu humor, irresistível. Entre explicações sobre o passado otomano e sua improvável microempresa de reciclar lâminas de barbear, Hassan nos conduziu até o Vale das Rosas.
O vale era uma vertigem de cores e perfumes. No início da manhã, mulheres com longas tranças adornadas por rosas se moviam entre fileiras floridas, com a leveza de quem dança sem música. O sol nascia devagar, filtrando-se entre as colinas, enquanto cestas de vime se enchiam de pétalas cor-de-rosa. O ar era denso, saturado de fragrância e trabalho — porque ali, beleza e labuta conviviam em perfeita harmonia.
Cada gesto era acompanhado por um cântico suave, quase um murmúrio ancestral, como se as flores respondessem à voz humana. O perfume das damascenas — as rosas que nascem apenas uma vez ao ano — dominava tudo, e era preciso toneladas de pétalas para extrair um litro do óleo dourado, o “ouro da Bulgária”.
Hassan, entre uma anedota e outra, nos ofereceu um cálice de licor de rosa, de sabor delicado e persistente, como uma lembrança que se recusa a partir. Depois, trouxe uma taça de geleia de rosa, espessa e translúcida, feita com pétalas cristalizadas em açúcar. O sabor era uma epifania: doce, floral, quase sagrado. Era como provar o perfume do vale — uma experiência que unia o paladar à memória.
Mais adiante, vimos mulheres preparando releias de rosas — tapetes efêmeros feitos com pétalas sobre o chão, obras de arte vivas que o vento desfazia sem piedade. Era um ritual entre o efêmero e o eterno, onde até o perfume parecia ter alma.
Mais tarde, subimos pelas estradas sinuosas até o Mosteiro de Rila, erguido no coração das montanhas. O caminho era pontuado por pinheiros, neblina e pequenas cascatas que pareciam orar em voz baixa. O mosteiro surgiu como uma visão — muralhas brancas e arcadas negras, cúpulas douradas e uma serenidade que impunha silêncio.
Lá dentro, um monge de barba branca nos recebeu com uma doçura antiga. Conversamos sobre o tempo e o perfume das rosas. “As flores murcham”, disse ele, “mas o aroma é a oração que fica.” No claustro, um ícone de São João de Rila brilhava à luz das velas, e o eco das montanhas misturava-se ao som distante de um sino. Era como se o país, entre o trabalho das mãos e o recolhimento da fé, guardasse um mesmo segredo: o de transformar dor e beleza em permanência.
Encerramos a jornada em Ruse, às margens do Danúbio. O hotel, cercado por cerejeiras, prometia música ao vivo. Um quarteto de jazz animava a boate vazia, tocando com entusiasmo que desafiava o silêncio. De repente, entre improvisos, surgiu uma versão de “Saudade da Bahia”. Dorival Caymmi, cantado em búlgaro, soava estranho e comovente. A melodia atravessou o idioma, o continente e o tempo — e por um instante, sentimos que aquela saudade era universal. Nas rosas da Bulgária e nas canções do Brasil, ecoava o mesmo desejo de pertencer a algum lugar — ainda que esse lugar fosse apenas o coração em viagem.
Bulgária 1973
Por Palmarí H. de Lucena