Era uma vez uma dançarina de limbo…

Parque Sólon de Lucena, começo da década de sessenta. Flores do ipê-amarelo, galhos secos recobertos de efêmero ouro, decoravam o solo do anel exterior. Círculo de palmeiras imperiais, plantadas simetricamente, prestavam sentinela ao precioso espelho de água no centro do logradouro. Pessoas, amantes, crianças, vendedores ambulantes, caminhavam sem pressa. Reflexos anônimos, sombras…

Ruído da multidão quebrava a beleza calma do crepúsculo. Cheios de antecipação. Orquestra de calipso, uma novidade musical, preparava-se para começar sua apresentação. Negros e mulatos da Guiana organizavam seus instrumentos, outros testavam o sistema de som. Espetáculo de música caribenha, sem rumbeiras em trajes diminutos, caldas de poás coloridas, turbantes enfeitados com plumas de aves exóticas. Sensualidade coberta de rendas e campânula. Requebros sinuosos, mambos frenéticos ou gritos primitivos de gargantas roucas por rum e tabaco, não estavam no programa.

Homem franzino, roupa multicolorida, voz suave. Chamava-se Cy Manifold, crooner e líder do grupo. Gestos de mão estudados, apresentando seus colegas. Reverência em direção ao público. Sorrisos cintilantes, alguns iluminados por dentes de ouro. Explicação breve sobre os instrumentos, tambores de aço, “steel drums”, espalhados no pequeno palco. Cilindros feitos de aço, com o fundo moldado em concavidades de diferentes tamanhos, tocados com baquetas revestidas de borracha ou feltro. Mencionou algo sobre a escala cromática, poucos entenderam. Não importava, o clima era de festa.

“Day-o Day-o…” “Come Mister Tally Mon, tally me bananas”, canção popularizada por Harry Belafonte, esquentando o público com algo familiar. Resposta entusiástica. Prosseguiram viajando pelas plantações de cana, fabricas de rum e praias de areia branca da Guiana, Trinidad e Tobago. Carnaval caribenho na terra do forró.

Pequena pausa, instrumentos reordenados no palco. Cy Manifold, no centro do palco cantava a Ave Maria de Gunoud em Latim. Tambores de aço ressonando, música divina. Vozes dissonantes acompanhando os músicos, na alegria e na paz do momento. Tudo parou, até o vento. As garças dormiam…

Sancta Maria, Mater Dei,

Ora pro nobis peccatoribus

Nunc et in hora mortis nostrae

Amen…

Suspiro coletivo…

Retornamos ao Caribe. Barras paralelas sustentadas por dois bailarinos. Parafernália da “dança do limbo”. Mulher esbelta com mãos erguidas para o céu, movendo-se na direção dos pontos cardeais. Dançando lentamente diante das barras, inclinando o corpo para baixo, até as costas ficarem quase rente ao chão. Grande finale…

Entrada do Paraíba Palace Hotel. Integrantes da banda preocupados, não haviam recebido seus cachês. O hotel insistia em pagamento imediato. Convocaram-nos como interprete. Resolvido o problema idiomático, chegamos a um acordo satisfatório. Convidamos o grupo para um almoço típico em nossa casa. Partiram para o próximo concerto…

Cy Manifold estabeleceu-se no Brasil, nunca voltou para a Guiana. Converteu-se em uma das vozes mais conhecidas da noite carioca. Termino da década de noventa, breve encontro em uma boate do Rio de Janeiro. Relembramos os dias de João Pessoa. E a dançarina, tem noticias dela? “Unforgetable, that’s what you are…”, cantarolou baixinho, imitação perfeita de Nat King Cole. Nunca respondeu a pergunta…

Conferência das Nações Unidas, Trinidad, quarenta anos depois. Recepção oferecida ao conferencista pelo ex-primeiro ministro e sua esposa. Conversávamos sobre nossos países, experiências vividas. Mencionamos a banda de calipso, que havíamos conhecido no Brasil. Marlene, a dançarina de limbo, era natural de San Fernando, coincidentemente o distrito eleitoral do parlamentar. Responderam entusiasticamente. Promoveriam um reencontro, quem sabe um final feliz para um romance fugaz, imaginavam. DJ amigo comandou a busca, resultou infrutífera. A dançarina não existia mais…

O cantor comemorou em 2007, os cinquenta anos de sua carreira artística acompanhado do seu filho Dover, em uma produção chamada “Uma viagem no tempo”, no Teatro Ipanema do Rio de Janeiro.