Quando li Karl May pela primeira vez, aos quinze anos, tive uma sensação de que ainda hoje me parece difícil de explicar. Não era apenas entusiasmo de leitor jovem, nem simples fascínio por aventuras. Era algo mais físico e silencioso: como se um livro pudesse deslocar interiormente uma pessoa, abrindo espaço dentro dela para um mundo maior.
Foi mais ou menos na mesma época em que tentei ler A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Mas enquanto aquele romance me parecia lento, pesado e distante, Karl May falava diretamente à imaginação. Eu compreendia intuitivamente seus desertos, caravanas, montanhas e travessias muito antes de compreender as longas reflexões de Thomas Mann sobre tempo, doença e decadência europeia.
Naquele momento da vida, eu precisava mais de horizontes do que de diagnósticos.
Hoje percebo que os dois autores falavam, cada um à sua maneira, da mesma Europa inquieta. Mas Thomas Mann parecia escrever de dentro de um quarto fechado, cheio de silêncio e consciência histórica. Karl May escrevia como quem abre uma janela.
Talvez por isso seus livros tenham marcado tantos adolescentes. Eles ofereciam ar.
O mais curioso é que aquele homem que me apresentou o mundo havia inventado grande parte dele. Karl May escreveu sobre o Oeste americano, desertos orientais e povos indígenas antes de conhecer muitos daqueles lugares. Criou paisagens inteiras a partir da imaginação — e, em certos períodos da vida, literalmente a partir do confinamento. Ainda hoje me impressiona a imagem de um homem escrevendo vastidões a partir de uma cela.
Na juventude, isso possui uma força quase perigosa. Porque o jovem não lê apenas histórias; lê possibilidades de existência.
Ao encontrar Winnetou e Old Shatterhand, eu não encontrava apenas aventura. Encontrava a sensação de que a vida podia ser maior do que o espaço estreito onde começamos. Karl May me ensinou, antes de qualquer viagem real, que o mundo não era apenas uma geografia distante, mas uma promessa. Seus personagens atravessavam desertos e fronteiras enquanto buscavam alguma coisa interior — coragem, dignidade, pertencimento.
Muitos anos depois, naturalmente, seria impossível reler Karl May com a mesma inocência. O mundo contemporâneo aprendeu a desconfiar das fantasias do século XIX. Sabemos hoje que seus indígenas eram frequentemente idealizações europeias, que sua América pertencia mais ao imaginário alemão do que à realidade histórica e que havia romantização na maneira como descrevia povos e culturas.
Mas reduzir Karl May apenas a isso me parece insuficiente.
Porque seus livros continuam revelando algo verdadeiro sobre a experiência humana: a necessidade de imaginar outros mundos para suportar melhor as limitações do próprio mundo. Talvez seja por isso que ainda hoje exista tanta nostalgia difusa por autenticidade, natureza, silêncio e horizontes menos artificiais. Mudaram as palavras, mas não a sede interior que levava jovens leitores alemães a sonhar com os desertos de Karl May.
Talvez isso explique também a diversidade surpreendente de seus leitores. Poucos escritores foram admirados por figuras tão diferentes quanto Hermann Hesse, Franz Kafka, Albert Einstein, Carl Gustav Jung e até Adolf Hitler.
Esse talvez seja um dos aspectos mais inquietantes de Karl May. Sua imaginação podia alimentar tanto sonhos generosos quanto fantasias perigosas de grandeza. Hitler admirava profundamente suas obras; isso lançou uma sombra difícil sobre sua reputação depois da guerra. Mas talvez essa ambiguidade revele algo essencial: a imaginação nunca é moralmente neutra. Ela pode abrir horizontes de liberdade ou produzir ilusões destrutivas.
Ainda assim, quando penso hoje naquele adolescente de quinze anos lendo Karl May enquanto tentava atravessar Thomas Mann, o que permanece não é a discussão ideológica nem a análise histórica. O que permanece é uma sensação.
A sensação de que existia um mundo maior esperando além da província, além da infância, além da vida já organizada pelos outros.
Thomas Mann me ensinaria depois a perceber a fadiga espiritual da Europa moderna. Karl May me ensinou primeiro a desejar o mundo.
E talvez a juventude precise exatamente dessa ordem: antes da consciência da crise, a descoberta do horizonte.
Hoje sei que a verdadeira viagem iniciada por aqueles livros não era geográfica. Era interior. Karl May ensinava, ainda que involuntariamente, que a imaginação pode preceder o destino; que primeiro atravessamos fronteiras dentro de nós antes de cruzar oceanos.
Alguns livros apenas nos acompanham por um tempo. Outros tornam-se parte silenciosa daquilo que acabamos sendo.
Karl May pertence, para mim, a essa segunda categoria.
E certas partidas iniciadas na juventude jamais terminam inteiramente.
Palmarí H. de Lucena