O catamarã deixou o Rio Paraíba sem que houvesse uma linha dizendo onde terminava o rio. A água apenas foi se abrindo, como se aos poucos encontrasse espaço para respirar. Os dois cascos brancos e compridos deslizavam lado a lado, unidos por uma plataforma larga que parecia pousada sobre a superfície. Entre eles, a cabine central se erguia um pouco acima do convés, e o mastro fino subia para o céu, preso por cabos e estais que a luz tornava quase invisíveis. Na proa, os cascos abriam duas linhas de espuma que logo se desfaziam. As pernas finas do marinheiro, na proa do barco, formavam duas balizas, emoldurando o mar. Quando a primeira rajada encheu a vela, os cabos rangeram no mastro, o tecido estalou duas vezes e o catamarã pareceu acordar. A água começou a correr mais depressa sob os cascos, com aquele ruído contínuo de papel sendo rasgado devagar.
Nas margens, os mangues foram ficando para trás. Vieram os bancos de areia, depois as praias, e a paisagem pareceu alargar-se junto com a água. A lama brilhava onde a maré havia baixado, refletindo pequenos pedaços de céu. As raízes dos mangues mergulhavam na água como dedos escuros. Algumas aves permaneciam nos galhos; outras caminhavam devagar pela borda dos bancos de areia, ocupadas com coisas que não podíamos ver. Ainda havia na água o verde das margens e o pardo da lama, mas, adiante, começava a surgir outra cor, mais clara, como se o mar chegasse antes de aparecer.
A cidade ficava para trás. Do convés, os prédios diminuíam pouco a pouco, perdendo primeiro as janelas, depois os contornos, até se tornarem apenas uma faixa irregular de construções junto à terra. As casas já não podiam ser distinguidas umas das outras. Não parecia que a cidade estivesse desaparecendo; era a distância que a transformava em outra coisa.
As gaivotas vieram nos acompanhar. Uma passou tão baixo que sua sombra correu sobre a água. Outra pousou num banco de areia e permaneceu imóvel enquanto avançávamos. Mais acima, as fragatas aproveitavam as correntes de ar. Uma inclinava a asa, ganhava altura e permanecia suspensa por alguns instantes antes de seguir adiante. A vela fazia um movimento semelhante: subia, estremecia, cedia um pouco e tornava a encher. Por momentos, o barco e as aves pareciam obedecer ao mesmo vento.
O farol branco apareceu ao longe, sozinho entre o céu e o mar. Durante algum tempo ficou parado enquanto avançávamos. Depois começou lentamente a deslizar para trás, tornando-se cada vez menor, até se transformar num ponto branco perdido na costa.
O Forte de Santa Catarina surgiu mais próximo da margem. As paredes claras pareciam guardar o calor do sol, enquanto as árvores se espalhavam por trás delas e a água seguia diante da construção. Visto do barco, o forte parecia menor do que eu imaginava, quase integrado à paisagem. Uma gaivota levantou voo de uma pedra quando passamos. Por alguns minutos ainda foi possível vê-la sobre a costa; depois desapareceu junto com o forte.
A água junto à costa era verde-turquesa, transparente nos trechos rasos. Mais longe, o verde se transformava em turquesa, depois em azul, até encontrar o azul do céu. O sol espalhava claridades sobre a superfície, e as nuvens deslocavam lentamente essas manchas de luz. Não havia uma fronteira entre uma cor e outra. O mar simplesmente mudava enquanto avançávamos, e cada mudança parecia revelar uma distância nova.
As praias estavam cheias. De tão distantes, as pessoas haviam perdido os rostos e pareciam pequenas figuras movendo-se sobre a areia. Os guarda-sóis eram manchas coloridas. Um grupo caminhava junto à água; outro permanecia reunido perto das ondas. Um menino corria pela praia atrás de alguma coisa que não conseguíamos ver. De longe, tudo parecia silencioso, embora soubéssemos que havia vozes, crianças, vendedores, música, motores. A distância transformava aquele movimento num desenho quase imóvel.
Uma onda alcançava a areia e apagava as pegadas. Outra vinha depois e deixava uma nova linha de espuma. As pessoas continuavam andando. Um barco de pesca surgiu perto da costa e logo desapareceu atrás de uma curva do litoral. Os coqueiros permaneciam imóveis, enquanto as praias e as construções pareciam recuar lentamente.
Quando olhei para trás, o forte já havia desaparecido. O farol era apenas um ponto branco. A cidade não estava mais à vista. Restavam as praias, os coqueiros e algumas construções acompanhando a costa, cada vez menores, até que também elas começaram a se confundir com a luz.
O vento aumentou. A vela se esticou de repente e o catamarã inclinou-se ligeiramente. Os cabos rangeram outra vez, a pequena embarcação auxiliar subiu atrás de nós e tornou a descer, enquanto a espuma se abria na proa em duas linhas brancas. Uma fragata passou acima do mastro, tão leve que parecia não tocar o ar. As gaivotas haviam ficado para trás.
A costa tornou-se uma faixa distante de verde e areia. O mar ganhou um azul mais profundo, e o céu parecia continuar dentro dele. O catamarã seguia adiante, levado pela vela e pelo vento, enquanto os cabos vibravam suavemente e a espuma desaparecia junto aos cascos. Muito acima, as fragatas continuavam a planar, usando o mesmo vento que nos levava para longe da terra. Por algum tempo, tive a impressão de que não estávamos deixando a terra para trás, mas entrando lentamente em outra coisa, mais vasta e sem nome.
Palmarí H. de Lucena