Entre o retrovisor e o futuro: o panfletismo e os limites do jornalismo de opinião

Entre o retrovisor e o futuro: o panfletismo e os limites do jornalismo de opinião

Lamentavelmente, o panfletismo político — de direita ou de esquerda — tornou-se, em determinados ambientes, uma espécie de folha de figueira destinada a esconder a falta de visão de futuro, a pobreza de ideias e a dificuldade de formular respostas criativas para os problemas do país. Em vez de produzir projetos, produz narrativas; em vez de propor caminhos, procura culpados; em vez de imaginar o amanhã, revisita obsessivamente o ontem.

Isso não significa que a História deva ser deixada de lado. Muito pelo contrário. Uma sociedade que não conhece o próprio passado dificilmente compreenderá suas dificuldades e os motivos de muitos de seus impasses. O problema surge quando a História deixa de ser instrumento de compreensão e passa a ser utilizada como arma retórica. É o que ocorre quando jornalistas, articulistas e comentaristas recorrem sistematicamente ao passado para confirmar teses já estabelecidas, selecionando acontecimentos e personagens que sirvam à narrativa que desejam sustentar.

O passado transforma-se, assim, em um grande retrovisor ideológico. Olha-se para trás não necessariamente para compreender, mas para encontrar justificativas para o presente. Os mesmos acontecimentos são revisitados, as mesmas interpretações são repetidas ad nauseam e os mesmos culpados são convocados para explicar problemas que, muitas vezes, pertencem a uma realidade completamente diferente.

É uma forma de oportunismo histórico: selecionam-se os fatos que favorecem determinada visão, enquanto os que a contradizem são relativizados, omitidos ou reinterpretados. Cada corrente política constrói sua própria galeria de heróis e vilões, suas explicações para os fracassos nacionais e suas versões da verdade. O resultado é uma disputa de narrativas que produz muito calor político, mas pouca luz sobre os problemas concretos do presente.

É importante, entretanto, fazer uma distinção. O jornalismo de opinião possui uma função legítima e necessária em uma sociedade democrática. Seu papel não é simplesmente reproduzir fatos, mas interpretá-los, contextualizá-los, formular hipóteses, questionar decisões e oferecer diferentes perspectivas sobre a realidade.

O jornalista ou articulista de opinião não precisa ser desprovido de convicções. Não se exige dele uma neutralidade impossível. Exige-se algo mais importante: honestidade intelectual.

Um bom articulista pode defender uma posição política, criticar um governo, elogiar uma política pública ou sustentar determinada visão econômica ou social. Mas deve ser capaz de distinguir fatos de interpretações, reconhecer evidências que contrariem sua própria tese, admitir incertezas e, sobretudo, submeter suas convicções à realidade.

O problema começa quando opinar se transforma em panfletar.

O articulista panfletário não utiliza os fatos para testar sua hipótese; utiliza-os para confirmá-la. Não pergunta se sua interpretação pode estar equivocada; procura razões para demonstrar que sempre esteve certo. A repetição substitui a demonstração, e a convicção passa a valer mais do que a evidência.

É nesse ponto que o jornalismo de opinião corre o risco de perder uma de suas funções mais nobres: introduzir dúvida onde existe excesso de certeza. O verdadeiro articulista deveria ser capaz de incomodar também aqueles que concordam com ele, colocar em questão as certezas de seu próprio campo político, reconhecer os méritos do adversário quando eles existem e admitir os erros de sua própria corrente quando os fatos assim exigirem. Afinal, a função da opinião não deveria ser simplesmente confortar o leitor, mas ajudá-lo a pensar.

Quando isso não acontece, o leitor deixa de ser convidado à reflexão e passa a ser convidado à confirmação. O articulista torna-se menos um intérprete da realidade e mais um fornecedor de argumentos para uma comunidade ideológica.

Existe nesse processo uma espécie de autossatisfação intelectual. O panfletário frequentemente não se vê como alguém que repete uma narrativa. Acredita ter alcançado uma compreensão superior da realidade, aquela que os demais — por ignorância, má-fé ou interesses ocultos — seriam incapazes de enxergar. A certeza passa a ser considerada uma virtude; a dúvida, uma fraqueza; a complexidade, uma desculpa. A disposição para rever posições diante de novos fatos desaparece.

Dessa maneira, tanto a direita quanto a esquerda podem incorrer no mesmo vício, ainda que suas convicções e seus diagnósticos sejam diferentes: confundir fidelidade à própria narrativa com compromisso com a realidade. Em ambos os campos, há quem recorra ao passado como um tribunal permanente. Tudo o que acontece hoje é interpretado à luz de velhos conflitos. O adversário contemporâneo é apresentado como herdeiro de alguma tradição condenável; o próprio grupo, como continuador de uma tradição virtuosa.

Essa simplificação pode ser politicamente eficaz, mas é intelectualmente pobre e pouco ajuda a resolver os problemas atuais. A História pode explicar como chegamos até aqui, mas não pode, sozinha, determinar para onde devemos ir.

Talvez a consequência mais grave desse comportamento seja a perda da capacidade de pensar o futuro. Enquanto jornalistas e articulistas dedicam boa parte de sua energia a reconstituir os mesmos conflitos históricos, quem está pensando seriamente sobre os próximos vinte ou trinta anos do país?

Como aumentar a produtividade? Como melhorar radicalmente a educação? Como preparar trabalhadores para as transformações tecnológicas? Como estimular inovação e empreendedorismo? Como tornar o Estado mais eficiente? Como melhorar a infraestrutura? Como enfrentar as mudanças demográficas? Como reduzir a pobreza e a desigualdade sem comprometer o crescimento? Como criar instituições capazes de produzir melhores resultados, independentemente de quem esteja no governo?

Essas perguntas são muito mais difíceis do que recontar, pela centésima vez, a história de um adversário político. É mais fácil explicar quem é culpado pelo passado do que assumir a responsabilidade de imaginar o futuro.

É justamente aí que o panfletismo pode contribuir para o marasmo em que nos encontramos. Não necessariamente porque impeça toda mudança, mas porque mantém o debate público preso a uma disputa circular. As mesmas acusações são recicladas, os mesmos episódios reinterpretados e os mesmos personagens convocados para explicar problemas novos. Enquanto isso, o país permanece esperando respostas.

Nesse sentido, o panfletismo funciona como uma verdadeira folha de figueira política. Cobre a ausência de ideias com uma aparência de convicção. Quanto mais inflamado o discurso, menos se percebe a fragilidade das propostas. Quanto mais contundente a acusação, menos se pergunta qual seria a alternativa.

É uma operação confortável: se todos os problemas podem ser atribuídos ao adversário, não é necessário explicar como resolvê-los. Se o presente é sempre consequência de erros cometidos décadas atrás, podemos continuar discutindo o passado indefinidamente e adiar a elaboração de um projeto para o futuro. O oportunismo histórico transforma, assim, a ausência de projeto em uma narrativa de justificativa.

E isso tem consequências para a sociedade. Um país não permanece estagnado apenas por falta de recursos. Pode permanecer estagnado também por falta de imaginação, de capacidade de formular novos caminhos e de disposição para abandonar respostas que já demonstraram seus limites.

É por isso que o jornalismo de opinião deveria ser cobrado por algo mais do que sua capacidade de produzir frases contundentes e interpretações politicamente atraentes. Deveria ser cobrado por sua capacidade de ampliar o horizonte do debate público.

Um articulista que conhece profundamente a História pode prestar um enorme serviço à sociedade quando utiliza esse conhecimento para iluminar o presente. Mas pode prestar um desserviço quando transforma a História em repertório de munição ideológica.

O jornalismo de opinião deveria ajudar o leitor a enxergar aquilo que ainda não está claro, e não apenas confirmar aquilo que ele já acredita. Deveria apresentar contradições, explorar alternativas, comparar experiências e reconhecer aquilo que permanece desconhecido. Mais do que dizer quem está certo, deveria ajudar a sociedade a descobrir o que funciona.

Essa mudança de perspectiva é fundamental. Países não avançam porque uma corrente ideológica consegue vencer eternamente a outra no debate histórico. Avançam porque conseguem aprender, experimentar, corrigir erros e incorporar soluções que funcionam, independentemente de sua origem política. O pragmatismo não significa ausência de princípios. Significa compreender que princípios não substituem resultados.

O Brasil não precisa escolher entre o retrovisor da direita e o retrovisor da esquerda. Precisa aprender a olhar para a estrada.

O passado deve ser estudado, mas não transformado em álibi. Deve servir de advertência, não de prisão. Deve ampliar nossa compreensão, não estreitar nossas possibilidades.

O jornalismo de opinião tem um papel importante nessa tarefa. Pode ser um espaço de inteligência, crítica e imaginação. Pode desafiar governos, partidos e grupos de interesse e obrigar a sociedade a discutir questões difíceis que a política prefere evitar. Mas, para isso, precisa resistir à tentação do panfletismo.

Talvez a pergunta mais importante que jornalistas, articulistas e políticos deveriam fazer não seja apenas quem foi responsável pelo nosso atraso, mas uma pergunta muito mais difícil: o que somos capazes de fazer, a partir de agora, para superá-lo?

Enquanto continuarmos transformando a História em uma arena permanente de acusações e o adversário em explicação universal para nossos fracassos, permaneceremos presos ao mesmo círculo. Continuaremos discutindo apaixonadamente quem estava certo ontem, enquanto poucos estarão se ocupando de imaginar o que poderá tornar o país melhor amanhã. E esse talvez seja o maior triunfo do panfletismo: não convencer todos de uma mesma verdade, mas reduzir o espaço da dúvida, da criatividade e da imaginação até que a sociedade se acostume a discutir o passado porque já não consegue imaginar o futuro.

Palmarí H. de Lucena