Entre o instinto e o planejamento: o erro estratégico que une Trump e Putin

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Entre o instinto e o planejamento: o erro estratégico que une Trump e Putin

Há uma máxima atribuída a Dwight D. Eisenhower que deveria ecoar em qualquer gabinete de poder: “planos são inúteis, mas o planejamento é indispensável”. A frase, longe de ser um paradoxo, traduz uma das verdades mais sólidas da arte da guerra: não é o plano em si que garante a vitória, mas a capacidade de adaptação construída a partir de um processo rigoroso de preparação. Ignorar essa premissa é abrir caminho para erros estratégicos — como parecem ter feito Donald Trump, no confronto com o Irã, e Vladimir Putin, na invasão da Ucrânia.

Ambos os líderes partiram de uma suposição semelhante: a de que a superioridade militar, combinada com decisão política, produziria resultados rápidos. Essa visão, no entanto, contraria outra lição clássica, formulada pelo estrategista prussiano Helmuth von Moltke: nenhum plano sobrevive ao primeiro contato com o inimigo. A guerra, por definição, é o território do imprevisto — e é justamente por isso que exige planejamento, não improviso.

No caso da Rússia, o erro foi evidente. A expectativa de uma campanha relâmpago na Ucrânia revelou uma leitura superficial do adversário. Moscou ignorou não apenas a capacidade de resistência ucraniana, mas também o peso do fator externo: o apoio militar e financeiro do Ocidente. O resultado foi a transformação de uma operação rápida em um conflito prolongado, oneroso e estrategicamente desgastante.

Trump, por sua vez, parece incorrer em equívoco semelhante ao lidar com o Irã. Ao apostar em bombardeios e pressão como instrumentos centrais, transmite a impressão de que decisões são tomadas mais por instinto do que por análise estruturada. Falta, nesse caso, aquilo que Eisenhower considerava essencial: o exercício contínuo de antecipar cenários, testar hipóteses e preparar respostas para o inesperado.

Outro conceito clássico ajuda a iluminar essa falha: a “fricção da guerra”, descrita por Carl von Clausewitz. Trata-se do conjunto de incertezas, erros e resistências que tornam a execução de qualquer plano muito mais difícil do que o previsto no papel. Tanto na Ucrânia quanto no Irã, essa fricção se manifesta de forma clara — seja na resiliência de um Estado, seja na capacidade de adaptação de um regime.

Há ainda a dimensão da guerra assimétrica, cada vez mais central nos conflitos contemporâneos. Quando um lado não pode competir em igualdade de condições, recorre a estratégias indiretas: prolongamento do conflito, uso de geografia, pressão econômica e desgaste político. A Ucrânia explorou isso com eficácia; o Irã, ao controlar rotas estratégicas como o Estreito de Hormuz, demonstra lógica semelhante. Em ambos os casos, a superioridade militar do adversário não se traduz automaticamente em vitória.

O ponto comum entre Trump e Putin, portanto, não é apenas a subestimação do inimigo, mas uma concepção equivocada da própria guerra. Trata-se de uma visão que privilegia ação imediata em detrimento de reflexão estratégica — uma inversão perigosa em um ambiente onde o tempo, a adaptação e a complexidade são determinantes.

A história oferece advertências suficientes. Dos Estados Unidos no Vietnã à União Soviética no Afeganistão, não faltam exemplos de potências que confundiram poder com controle. O resultado, quase sempre, foi o mesmo: conflitos prolongados, custos elevados e objetivos não alcançados.

Se há uma lição duradoura nesses episódios, ela permanece atual: a guerra não é o espaço da certeza, mas da preparação. E líderes que substituem planejamento por instinto tendem a descobrir — como já demonstrou a experiência — que a força, por si só, raramente é suficiente.

Por Palmarí H. de Lucena