Entre o discurso, o privilégio e a mediocridade

Entre o discurso, o privilégio e a mediocridade

Às sete da manhã, o ônibus está lotado. O cheiro de diesel mistura-se ao suor dos passageiros. Um rapaz assiste, no celular, a um parlamentar aos berros. Balança a cabeça, indignado. Dois bancos atrás, outro passageiro reage ao mesmo vídeo, mas pensa o contrário. Bastam algumas palavras para que as vozes subam e os olhares se tornem hostis.

O ônibus desvia de um buraco no asfalto. O rapaz desce batendo a porta; o outro volta à janela, satisfeito, como se tivesse vencido uma discussão que nada mudou em sua vida.

Na padaria, uma senhora devolve dois pães depois de ouvir o preço. Na farmácia, um aposentado pergunta se existe uma versão mais barata do medicamento. No supermercado, uma mãe consulta a calculadora do celular e retira um pacote de biscoitos do carrinho. A crise aparece: no alimento que fica na prateleira, no remédio adiado, no dinheiro que não chega ao fim do mês.

Enquanto isso, nas telas dos celulares, multiplicam-se certezas e acusações. No grupo da família, uma discussão atravessa o almoço. Um irmão acusa o outro de não enxergar a verdade; uma sobrinha abandona a conversa. À noite, o assunto retorna à mesa. A avó pede que deixem a política para depois. Ninguém a escuta. A política passou a interferir até nas relações mais próximas.

Vivemos uma catarse. Raiva, medo e desconfiança ocupam o debate público. A revolta diante das injustiças é legítima, mas perde força quando se limita a alimentar conflitos. Gritamos muito. Escutamos pouco.

No Congresso Nacional, há parlamentares que levam a sério seus mandatos. Outros parecem confundir representação com exposição pública. Comparecer às sessões, estudar projetos e fiscalizar o Executivo são obrigações. Ainda assim, a presença vira propaganda, o discurso inflamado é apresentado como realização e a provocação rende mais visibilidade do que o trabalho legislativo.

O problema não é falar alto, mas ter pouco a apresentar. O Congresso deveria ser avaliado pelas decisões que toma, pela fiscalização que exerce e pelos resultados de sua atuação, não pela quantidade de confrontos que oferece ao público.

Em alguns estados, a composição das bancadas faz lembrar uma árvore genealógica. Sobrenomes se repetem, parentes sucedem parentes e alianças atravessam gerações. A eleição de pessoas da mesma família não constitui, por si só, irregularidade. A preocupação está na concentração de influência, nas vantagens de estruturas políticas consolidadas e nas barreiras enfrentadas por candidatos sem os mesmos recursos e conexões.

E nós, eleitores, não estamos fora dessa história. Talvez nossa baixa autoestima coletiva se revele na facilidade com que nos acostumamos a exigir pouco. Aceitamos a agressividade como coragem, a popularidade como competência e a fidelidade pessoal como virtude. Perdoamos no aliado o que condenamos no adversário; a régua muda conforme a camisa.

A desigualdade, a desinformação, o poder econômico e as estruturas partidárias condicionam nossas escolhas. Seria injusto atribuir toda a responsabilidade ao eleitor. Ainda assim, precisamos perguntar por que tantas vezes nos satisfazemos com representantes que oferecem mais confronto do que solução. O grito identifica inimigos e promete vitórias rápidas; o trabalho exige conhecimento, negociação e persistência. É mais fácil aplaudir uma humilhação pública do que examinar um projeto de lei. Assim, a mediocridade também se alimenta de quem a tolera e, por vezes, a recompensa nas urnas.

Há contradição no discurso da austeridade fiscal. Alguns representantes defendem cortes de benefícios, restrições de direitos e redução de despesas, alegando que o Estado precisa economizar e que a sociedade deve aceitar sacrifícios. O problema começa quando o rigor parece valer mais para uns do que para outros.

Enquanto se cobram cortes em políticas públicas, também se discutem reajustes salariais, verbas e vantagens para agentes do próprio poder. Nem todo benefício é privilégio, assim como nem todo corte representa eficiência. Mas a coerência exige transparência, critérios claros e fiscalização. Quem paga impostos tem o direito de saber como o dinheiro público é utilizado e quais resultados justificam cada despesa.

Defender interesses profissionais ou corporativos é legítimo. O problema surge quando a representação se fecha sobre si mesma e deixa de considerar o interesse público. Um mandato não é propriedade particular nem instrumento para perpetuar vantagens: é uma responsabilidade temporária, confiada pelos cidadãos.

Reclamamos dos privilégios do adversário, mas relativizamos os do aliado. Exigimos transparência de quem não apoiamos e aceitamos explicações insuficientes de quem admiramos. O custo dessa incoerência aparece no desperdício de recursos, nos serviços deficientes, nas oportunidades perdidas e na confiança abalada.

Apesar disso, o Brasil não se resume às disputas parlamentares. Há professores que insistem em ensinar, profissionais de saúde que enfrentam jornadas exaustivas e cidadãos que mantêm iniciativas comunitárias sem esperar reconhecimento. É na escola sem material, no posto de saúde onde a espera atravessa a manhã e na rua cuja iluminação não foi consertada que a política revela seus resultados.

No fim da tarde, uma ambulância tenta avançar entre os carros. Um comerciante recolhe as mercadorias antes da chuva. Uma laranja cai do carrinho de um vendedor e rola até a sarjeta. Um menino de uniforme corre para buscá-la e a devolve ao homem, que limpa a fruta na camisa e agradece. O gesto não resolve os problemas do país, mas lembra que a convivência depende de atitudes concretas.

A democracia exige mais do que eleições regulares. Exige representantes sujeitos à fiscalização, oportunidades de renovação política e cidadãos dispostos a avaliar os eleitos pelo trabalho realizado, não pelos sobrenomes, pela agressividade ou pela afinidade ideológica. O descontentamento precisa converter-se em cobrança: transparência nos gastos, acompanhamento das promessas e avaliação dos resultados.

A mediocridade política não se mantém apenas pela ação de quem a pratica, mas também pela tolerância de quem deixa de cobrá-la. Os representantes passam, os mandatos terminam e as consequências de suas decisões permanecem na vida da população.

Um país não se revela apenas pelos políticos que elege, mas também pelo que aceita deles. A democracia amadurece quando o cidadão deixa de confundir lealdade com submissão e compreende que nenhum mandato está acima do interesse público.

Palmari H. de Lucena