Há frases que nascem da indignação e, de tanto serem repetidas, acabam parecendo verdades definitivas. Bandido bom é bandido morto é uma delas.
Quem a pronuncia nem sempre está defendendo a violência por si mesma. Pode estar expressando medo, revolta diante da impunidade, cansaço com a insegurança ou a sensação de que o Estado perdeu a capacidade de proteger quem cumpre a lei. É preciso reconhecer esse sentimento antes de julgá-lo.
A violência não chega à vida das pessoas como uma estatística. Ela entra pela porta de casa, interrompe planos, muda rotinas e, em seus casos mais trágicos, deixa famílias inteiras convivendo com uma ausência que não se resolve com números. Para quem perdeu alguém para o crime, falar em segurança pública não é discutir uma abstração. É falar da própria vida.
Talvez seja por isso que Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, continue sendo uma obra tão perturbadora. O romance não oferece uma fórmula simples para explicar o crime nem uma resposta confortável para a punição. Em vez disso, coloca o leitor diante da consciência de um homem que mata e, depois do crime, descobre que nenhuma justificativa intelectual é suficiente para apagar o peso de seu ato.
Raskólnikov acredita que certas pessoas poderiam estar acima das regras morais comuns. A teoria parece poderosa enquanto permanece no terreno das ideias. Quando encontra a realidade, porém, revela sua fragilidade. O assassinato não encerra a história. É justamente ali que ela começa.
O castigo, em Dostoiévski, não é apenas uma questão jurídica. É também uma questão moral.
Talvez seja nesse ponto que a frase: bandido bom é bandido morto mereça uma pausa.
Uma sociedade tem o direito de se defender. Tem o dever de proteger seus cidadãos. Tem também o direito de exigir que quem comete crimes responda por seus atos. Segurança pública não pode significar tolerância com a violência, assim como compaixão não pode ser confundida com impunidade.
Mas existe uma diferença entre defender o combate firme ao crime e transformar a morte do criminoso em princípio de justiça.
A primeira ideia pertence ao campo da responsabilidade. A segunda pode nos conduzir ao campo da vingança.
E justiça e vingança, embora às vezes pareçam próximas, não são a mesma coisa.
A justiça pressupõe regras, provas, julgamento e limites. A vingança parte da convicção de que a dor autoriza uma resposta equivalente ou superior. Uma procura preservar uma ordem comum; a outra corre o risco de reproduzir a própria lógica da violência que pretende combater.
Isso não significa ignorar a realidade das ruas. Tampouco significa negar situações em que o uso da força, inclusive letal, possa ser necessário para impedir uma ameaça concreta e imediata à vida. Há circunstâncias em que o policial precisa decidir em segundos aquilo que nós, protegidos pela distância, podemos discutir durante horas.
Mas uma situação de confronto não deve ser confundida com uma política de execução.
O Estado precisa ter força para enfrentar o criminoso. Mas precisa também ter limites para não se transformar em um agente arbitrário da violência. A autoridade pública não se torna mais legítima porque mata mais. Torna-se mais legítima quando consegue proteger mais vidas, prevenir mais crimes e fazer cumprir a lei com eficiência.
Prender um criminoso é necessário. Julgá-lo com provas é necessário. Condená-lo quando houver culpa é necessário. Mantê-lo afastado da sociedade quando representar perigo é necessário. Garantir às vítimas o reconhecimento de sua dor também é necessário.
Tudo isso faz parte da ideia de justiça.
O problema começa quando passamos a acreditar que a eliminação física do criminoso é, por si só, a medida de uma política de segurança bem-sucedida.
Uma cidade mais segura não é necessariamente aquela em que mais criminosos morreram. É aquela em que menos pessoas foram vítimas de criminosos.
Dostoiévski não absolve Raskólnikov. Tampouco transforma seu sofrimento em desculpa para o assassinato. O que o escritor faz é mais incômodo: obriga o leitor a olhar para o criminoso sem deixar de olhar para o crime.
Essa talvez seja uma lição importante para o debate público.
Podemos ser rigorosos contra a criminalidade sem transformar todo criminoso em alguém desprovido de humanidade. Podemos defender penas severas sem considerar a morte uma solução automática. Podemos exigir policiais preparados e protegidos sem aceitar que a força deixe de estar submetida à lei.
Há ainda uma questão que costuma desaparecer quando o debate se resume a bandido bom é bandido morto: a possibilidade de erro.
Instituições humanas erram. Investigações podem falhar. Testemunhas podem se enganar. Acusações podem ser falsas. Uma pessoa pode ser confundida com outra. Uma decisão tomada sob pressão pode produzir uma injustiça irreversível.
A morte, diferentemente da prisão, não permite revisão.
Talvez seja essa uma das razões pelas quais sociedades democráticas tenham criado procedimentos antes de privar alguém da liberdade. Não porque o criminoso mereça privilégios, mas porque o poder de punir precisa ser controlado.
Quem recebe do Estado o poder de decidir sobre a vida e a liberdade de outras pessoas precisa ser ainda mais submetido à lei.
É uma das diferenças entre civilização e barbárie: não a ausência do conflito, mas a existência de limites para enfrentá-lo.
É compreensível que uma vítima deseje vingança. O Estado, porém, não pode organizar suas políticas a partir desse sentimento. Sua responsabilidade é maior justamente porque seu poder é maior.
A família que perdeu alguém para o crime tem direito à justiça. O criminoso tem direito ao devido processo. A sociedade tem direito à segurança. O policial tem direito a trabalhar com recursos, treinamento e proteção. E o Estado tem o dever de equilibrar esses direitos sem abandonar a lei.
Não é uma equação simples. Talvez nenhuma questão moral importante seja.
No fim, a questão não é escolher entre ser duro ou ser brando. É aprender a ser justo.
Porque, quando a fronteira entre justiça e vingança desaparece, o problema deixa de ser apenas o crime cometido por quem está do outro lado. Surge então uma pergunta mais difícil:
O que estamos dispostos a nos tornar para combater aquilo que consideramos intolerável?
Palmarí H. de Lucena