Entre o Concreto e as Boninas

Photo by Palmarí H. de Lucena
Entre o Concreto e as Boninas

Bananeiras sempre foi uma cidade de escala humana. De varandas abertas para a brisa, de fachadas que respeitam a inclinação da serra, de ruas onde o tempo parece caminhar sem pressa. Sua identidade construiu-se na convivência entre natureza e arquitetura discreta, entre o relevo ondulado e as casas que não disputavam protagonismo com a paisagem.

Nos últimos anos, contudo, um novo desenho passou a marcar o horizonte. Condomínios fechados multiplicam-se nas encostas, com portarias monumentais e ruas geometricamente traçadas. Dentro deles, erguem-se residências de grandes proporções, fachadas imponentes, telhados sobrepostos, colunas e revestimentos que evocam um repertório internacional. São símbolos visíveis de uma prosperidade recente, impulsionada pelo turismo de inverno e pela busca de refúgio climático.

É nesse contexto que cabe a expressão consagrada no urbanismo norte-americano: McMansion. O termo surgiu nos Estados Unidos nas décadas de 1980 e 1990, combinando o “Mc” — numa referência irônica à rede McDonald’s — com “mansion”, mansão. A ideia sugere produção em série, padronização e aparência de luxo. Não designa simplesmente casas amplas, mas construções que recorrem a uma mistura de estilos e a volumes exagerados para produzir impacto visual, muitas vezes com pouca relação com o entorno.

Em Bananeiras, a analogia encontra eco. Parte dessas novas edificações parece mais conectada a um imaginário globalizado do que à tradição serrana. O resultado é uma paisagem que, pouco a pouco, substitui a sobriedade por cenografia. A serra deixa de ser moldura para tornar-se pano de fundo.

É inegável que o movimento imobiliário aquece a economia, gera empregos e amplia a oferta de serviços. A cidade tornou-se mais dinâmica, mais frequentada, mais valorizada. O progresso, por si, não é um erro. O risco reside na ausência de diálogo entre crescimento e identidade.

Enquanto o concreto avança, outro símbolo permanece quase invisível, mas persistente: as boninas da serra. Flores simples, que surgem nos jardins e encostas quando o clima esfria. Não competem com a paisagem; integram-se a ela. Movem-se com o vento, ocupam o espaço sem impor-se. São expressão de uma elegância natural que não depende de monumentalidade.

O contraste é revelador. De um lado, a casa que busca afirmar status por meio do volume e da exibição. De outro, a flor que confirma pertencimento pela leveza. A cidade encontra-se entre essas duas lógicas: a do catálogo e a da memória.

Bananeiras não precisa renunciar ao crescimento. Precisa qualificá-lo. Planejar com critério, exigir harmonia, preservar vistas, respeitar a topografia e a história. Desenvolvimento não é sinônimo de padronização; prosperidade não exige descaracterização.

Se as novas construções aprenderem a conviver com a paisagem — e não a dominá-la — o encanto poderá sobreviver. Caso contrário, a serra corre o risco de transformar-se em réplica de um modelo alheio, repetido em qualquer latitude.

Cidades que perdem sua escala perdem também sua singularidade. E Bananeiras, por sua história e por sua beleza, merece continuar sendo mais que um endereço valorizado. Merece permanecer uma paisagem viva, onde o concreto saiba ceder espaço às boninas.

Por Palmarí H. de Lucena