Estávamos em Bamako, capital do Mali, onde o calor parece ter vontade própria e o ar se move como se estivesse cansado de ser respirado. Entramos num bistrô francês — uma paródia de Casablanca, com o charme gasto e a nostalgia de impérios desfeitos. O dono, europeu genérico, tinha o figurino completo de aventureiro decadente: camisa cáqui encharcada de suor, boina amarrotada e olhar de quem já lutou batalhas que o mundo esqueceu. Ao seu lado, uma mulher indochinesa de meia-idade, talvez um souvenir sentimental do Vietnã francês, cuidava das mesas com um silêncio disciplinado.
No rádio, uma rumba congolesa estourava os alto-falantes — barulhenta, viva, irresistível. Pequena concessão do patrão à cultura local. “Le noir, raça primitiva”, murmurou ele, suspirando como quem filosofa. Os garçons, submissos, respondiam: “Oui, Patron. Oui, Madame.” O ar estava pesado de ironia e resignação.
Na manhã seguinte, partimos rumo ao País Dogon, no leste do Mali. Lá, o mundo parece ter sido esculpido à mão. As aldeias se equilibram nas escarpas de Bandiagara, onde o tempo dorme dentro das pedras. Cada geração constrói suas casas abaixo das dos antepassados, como se pedisse licença para existir. No centro de cada vilarejo ergue-se o togu-na — a Casa da Palavra, onde os anciãos decidem tudo. O teto é propositalmente baixo: ninguém pode se levantar durante as discussões. É a arquitetura da sabedoria — e da paz.
Nosso fascínio pelos Dogon vinha de um documentário sobre arte africana. Suas esculturas de madeira, longas e silenciosas, parecem suspensas entre o humano e o divino. São corpos verticais que oram em silêncio, braços erguidos em direção ao invisível. Ali, a madeira respira. Cada figura representa uma ideia: a fertilidade, o nascimento, a harmonia entre os mundos. O artista Dogon não esculpe por vaidade — traduz segredos.
Mas o que mais nos intrigava era a cosmologia Dogon. Segundo seus mitos, eles conheciam há séculos o sistema estelar de Sirius, com suas estrelas gêmeas, A e B, e seus períodos orbitais — muito antes da astronomia moderna. Dizem que Amma, o Criador, veio flutuando num “ovo dourado” e enviou à Terra os Nommo, seres anfíbios que ensinaram aos humanos a agricultura, a palavra e o respeito pela água. Quando os cientistas confirmaram, milênios depois, que Sirius B existia, os Dogon apenas sorriram: o invisível, diziam, sempre chega antes da razão.
Descemos as falésias de Sanga às cinco da manhã. Dez quilômetros de caminho íngreme e poeira dourada. As saudações eram infindas. Queriam saber de onde vínhamos, quantos filhos tínhamos, se conhecíamos Pelé. O filho do chefe nos esperava na base. Seria nosso guia até Tereli, onde dormiríamos sob o rumor dos tambores e o perfume da lenha.
À noite, fomos convidados à togu-na. O chefe queria falar com o “griot branco do Brasil”. Primeiro, as saudações — longas, poéticas, como um cântico. Depois, o assunto sério: Pelé.
Tinham ouvido falar do Rei. Queriam saber se era verdade que ele fazia gols de costas, se sorria antes de chutar, se podia transformar derrota em dança. E nós — movidos por um entusiasmo patriótico e um leve delírio narrativo — confirmamos tudo. Falamos de gols reais e inventados, de dribles que jamais existiram. Em cada pausa, risos e aplausos. Pelé, dissemos, era um Nommo do futebol, meio homem, meio deus.
Nos dias seguintes, visitamos aldeias recebidos com generosidade. Crianças nos seguiam chutando pedras, latas, bolas de pano. E em cada povoado, víamos máscaras penduradas em muros de barro, esperando o momento do ritual.
As máscaras Dogon são feitas de madeira sagrada, esculpidas por mestres que aprendem desde cedo a ouvir o som do tronco antes de tocá-lo com a lâmina. Nenhuma é simples ornamento: são pontes vivas entre o visível e o invisível. Essas máscaras ganham vida durante a cerimônia Dama, quando os vivos libertam as almas dos mortos. São seis dias e seis noites de música, dança e transe. A madeira se transforma em vento, o corpo em tambor, o chão em portal. As cores — vermelho, branco e preto — simbolizam terra, vida e eternidade.
Anos depois, já à beira-mar, em João Pessoa, o barulho era outro. O forró disputava espaço com o pagode e o axé. As pessoas caminhavam distraídas, de costas para o oceano. Levantamos os olhos e lá estava Sirius, companheira do verão, a estrela dos Dogon, brilhando sobre o Atlântico.
E então, sob o céu tropical, perguntamo-nos:
Por que nós, que trazemos Sirius no emblema da bandeira, não temos também uma Casa da Palavra?
Um lugar onde todos se sentem à mesma altura para conversar antes de discordar.
Sob o céu de Sirius, talvez o Brasil também aprendesse a escutar — e, quem sabe, a dançar com seus próprios deuses.
Mali, 1975
Por Palmarí H. de Lucena