Entre Kalashnikovs e Tabaco: Breves Lições de Humanidade

Entre Kalashnikovs e Tabaco: Breves Lições de Humanidade

Algumas vidas são salvas por acaso — e às vezes o acaso tem forma de um cigarro aceso.
Durante anos de viagens e missões humanitárias, o fumo foi mais que vício: foi trégua, moeda, amuleto de bolso. Recordo-me das mãos tensas, das armas em riste e da brasa vermelha que, por alguma lógica absurda, tantas vezes significou sobrevivência.

Em Gana, a tensão começou numa sala abafada, saturada de poeira, fumaça e cansaço. Discutíamos o envio de alimentos para regiões famintas. Soldados entravam e saíam com carabinas Kalashnikov pendendo dos ombros. O comandante, impassível, ouviu-nos por alguns minutos antes de declarar:
— “A justiça revolucionária punirá energicamente os saqueadores de carga humanitária.”

Ninguém respondeu. Sabíamos o que significava aquele aviso.

Dias antes, na estrada entre Gana e Togo, outro grupo de soldados havia nos interceptado, ameaçando confiscar os alimentos.
O líder, faminto e nervoso, revistou nossas mochilas até encontrar um maço de cigarro americano. Acendeu um cigarro com satisfação quase infantil — provavelmente a mesma com que o Ministério da Saúde estamparia o alerta de “fumar mata” na embalagem.
A diferença é que, naquele instante, fumar salvou. A ameaça dissolveu-se no ar. O fumo tornou-se língua franca; a diplomacia do tabaco valeu mais que tratados, resoluções ou discursos inflamados.

Em Moçambique, a história ganhou tons mais sombrios.
Viajávamos pelo distrito de Chókwè, onde rebeldes haviam saqueado um leprosário e ameaçado religiosas. O sol se rendia ao horizonte quando um adolescente surgiu das sombras, empunhando uma AK-47 maior que o próprio corpo.
— “Virem-se. Mãos para cima.”
O cano da arma encostou em minha nuca.
— “Fuma?” perguntou.
— “Sim.”

Ali não havia médico, nem missionário, apenas a pergunta, a arma e o tabaco.
O sorriso breve devolveu-me o ar. Ele tomou nossos cigarros, murmurou “Kanimambo” — obrigado — e desapareceu na escuridão. Ficamos imóveis, entre o medo e o alívio, conscientes de que, naquela noite, o tabaco havia comprado o direito de viver.

O pulmão protestaria mais tarde; a vida, pelo menos, ganhara prazo extra.
E assim seguimos viagem, envoltos na ironia de um destino que, vez ou outra, troca o cheiro da pólvora pelo da fumaça — e, por um instante, suspende a guerra para conceder um respiro de humanidade.

Essas cenas voltam como uma película antiga: meninos-soldados, rostos endurecidos, cigarros pendendo de lábios infantis, como se a fumaça lhes conferisse maturidade. Vi neles a própria caricatura da guerra — juventude perdida, humanidade consumida lentamente, como tabaco mal queimado. Manual de saúde algum recomendaria aquilo. A realidade, porém, raramente consulta manuais.

Anos depois, cruzando a Europa Oriental, o destino me levou à fronteira entre a Romênia e a Sérvia. Era noite quando chegamos à ponte das Portas de Ferro (Porțile de Fier). O Danúbio corria sob nós como um espelho rachado, refletindo a lua e o rumor das turbinas.

Do lado sérvio, um soldado jovem emergiu das sombras. Fumava um papirosa soviético, o cigarro pendendo dos lábios. Fez sinal para pararmos. Revistou documentos, abriu as malas e, ao encontrar o tabaco americano, lançou o dele ao chão, hesitou e pediu um. Oferecemos três carteiras. Ele assentiu, num gesto silencioso de trégua. A ponte, antes de concreto e aço, transformou-se no lugar onde o medo resolveu, por alguns minutos, fazer uma pausa para fumar.

O pensamento me levou de volta à adolescência — quando fumei meu primeiro cigarro, acreditando que aquele gesto me fazia adulto. Desfilava pelas ruas, peito ereto, soltando nuvens de arrogância e inocência. O tabaco era disfarce, rito de passagem e máscara de coragem. Eu me sentia invencível, como se cada tragada acrescentasse experiência — e não apenas nicotina — ao sangue.

Hoje, o mesmo cheiro me causa repulsa. O gesto que outrora simbolizou alívio e sobrevivência agora me devolve à consciência das vezes em que desafiei a morte, chamando-a para uma conversa com aroma de ironia. As estatísticas afirmam que o tabaco mata milhões; minha biografia, com sarcasmo involuntário, registra ocasiões em que ele impediu que um fuzil matasse antes. Uma disputa desigual entre a morte lenta do pulmão e a morte rápida da bala.

Lembro-me de uma frase ouvida numa noite qualquer:
— “É preciso compromisso consigo mesmo antes de exigir o compromisso dos outros.”

Abandonei o tabaco naquela noite. Não por medo do aviso na embalagem, mas por gratidão às vezes em que ele serviu de escudo improvisado.
Se o Ministério da Saúde quisesse ser realmente honesto, talvez fosse obrigado a incluir, em letras minúsculas, no rodapé dos maços:

“Este produto causa câncer, enfarte, derrame e dependência.
Em cenários extremos, pode ocasionalmente evitar que um homem armado puxe o gatilho.
Mesmo assim, é melhor não testar a sorte.”

O tabaco me acompanhou onde a razão falhava. Agora é minha vez de protegê-lo — não do fogo, mas do esquecimento — transformando cada tragada antiga em narrativa, e cada nuvem de fumaça em memória crítica, irônica e, sobretudo, sóbria.

Romênia, Sérvia, Gana, Moçambique e João Pessoa — 1973 a 2005
Por Palmarí H. de Lucena