Um leitor me sugeriu um tema para esta crônica: por que não olhar para as experiências recentes de Venezuela e Argentina e perguntar o que elas podem ensinar ao Brasil? A sugestão me pareceu interessante justamente porque não precisa partir de uma conclusão. Antes de dizer onde um país pode chegar, talvez seja mais prudente observar os caminhos que percorreu, as escolhas que fez, as circunstâncias que enfrentou e, sobretudo, os efeitos que essas escolhas produziram na vida cotidiana.
A intenção aqui não é atribuir mérito ou culpa a partidos, governos ou correntes ideológicas, mas observar resultados econômicos e sociais e reconhecer que, em muitos casos, há mais de uma interpretação possível para os mesmos acontecimentos.
Venezuela e Argentina são países diferentes, com histórias, estruturas produtivas e instituições próprias. Compará-los não significa dizer que sejam iguais, muito menos transformar suas experiências em argumentos automáticos a favor ou contra determinada corrente política. A comparação pode ser mais útil se feita por critérios semelhantes: origem dos desequilíbrios, inflação, situação fiscal, produção e investimento, pobreza, capacidade de recuperação e instituições. É por esse caminho que vale olhar também para o Brasil.
Na Venezuela, durante muitos anos, a abundância de petróleo ocupou um lugar central na economia. A receita proveniente da exportação permitiu financiar gastos públicos, subsídios, programas sociais e importações em larga escala. O problema, que aparece com frequência em economias excessivamente dependentes de uma única fonte de riqueza, é que a prosperidade de um setor pode esconder fragilidades nos demais. Quando o preço do petróleo caiu e a produção também começou a perder força, a entrada de dólares diminuiu justamente quando as necessidades fiscais e externas continuavam elevadas.
A partir daí, problemas que antes pareciam administráveis foram se acumulando. A queda da produção, a deterioração das contas públicas, a escassez de divisas e a expansão monetária formaram uma combinação particularmente difícil. A inflação ganhou velocidade, corroendo salários, aposentadorias e poupanças. O resultado foi uma perda profunda de poder de compra e uma piora das condições sociais. Ainda hoje, a Venezuela permanece em situação macroeconômica ainda marcada por desequilíbrios importantes, o que mostra como uma recuperação da atividade econômica, quando ocorre, não significa necessariamente a normalização da vida cotidiana.
É importante, entretanto, não transformar essa história numa explicação de causa única. A crise venezuelana não pode ser atribuída apenas à queda do petróleo, assim como não seria correto ignorar as decisões econômicas tomadas internamente ou os efeitos posteriores das sanções internacionais. Crises dessa dimensão raramente têm uma única causa. Elas costumam nascer de vários desequilíbrios que, em determinado momento, passam a se reforçar mutuamente.
Na Argentina, o ponto de partida é outro, embora algumas dificuldades econômicas possam parecer familiares. O país conviveu por décadas com inflação elevada, desequilíbrios fiscais, crises cambiais e sucessivas perdas de poder de compra. Não se tratava de uma economia dependente exclusivamente de uma commodity, mas de uma economia que havia desenvolvido uma longa dificuldade para conciliar gastos públicos, arrecadação, moeda, câmbio e confiança.
No final de 2023, a inflação argentina havia ultrapassado 200% ao ano. A partir de então, o governo adotou um programa de um amplo programa de ajuste fiscal, mudanças monetárias e redução de diversos subsídios e distorções. O resultado, até aqui, foi expressivo: a inflação anual caiu para a faixa de 30%, depois de ter ultrapassado 200%, e o país registrou superávit primário. O crescimento voltou a aparecer depois da a contração registrada anteriormente, embora permaneçam desafios importantes.
Mas aqui também é preciso resistir à tentação da narrativa simples. Uma queda rápida da inflação não significa que todos os problemas tenham desaparecido. O ajuste teve custos sociais importantes no início, e a pobreza chegou a ultrapassar 50% no primeiro semestre de 2024. Posteriormente, caiu de maneira significativa, acompanhando a recuperação da renda real e a redução da inflação. Essa trajetória argentina merece atenção justamente por conter duas histórias ao mesmo tempo: a do os custos sociais associados à correção de desequilíbrios acumulados e a da melhora de alguns indicadores depois que esses desequilíbrios começaram a ser enfrentados. Uma não apaga a outra.
É nesse ponto que a comparação entre os dois países fica mais interessante. Na Venezuela, a perda de capacidade produtiva, a inflação extrema e a combinação de dificuldades econômicas e institucionais contribuiu para prolongar os efeitos sociais da crise. Na Argentina, apesar de décadas de instabilidade, as instituições políticas e econômicas seguiram permitindo mudanças de orientação e uma tentativa de estabilização. São trajetórias diferentes, e justamente por isso não deveriam ser colocadas no mesmo saco.
Também há uma diferença importante na capacidade de recuperação. Uma economia pode crescer depois de uma grande contração simplesmente porque parte de uma base muito baixa. Outra pode crescer porque conseguiu recuperar investimentos, crédito, produção e confiança. Os números do PIB, portanto, precisam ser lidos com algum cuidado. Crescimento é importante, mas não conta sozinho a história de um país.
Há ainda uma dimensão que costuma ficar escondida quando a discussão econômica se transforma em disputa política: a das instituições. Moeda, orçamento, empresas públicas, Banco Central, Judiciário, Parlamento, imprensa, regras eleitorais e segurança jurídica podem parecer assuntos distantes da vida cotidiana. Não são. São parte da infraestrutura invisível que determina se famílias conseguem planejar, se empresas investem e se o Estado consegue corrigir seus próprios erros.
É por isso que a experiência venezuelana merece atenção também nessa dimensão, enquanto a argentina oferece outro tipo de observação. Uma economia pode sofrer muito e ainda preservar mecanismos institucionais capazes de permitir mudanças de rumo. O desafio maior aparece quando os mecanismos institucionais de controle, contrapeso e correção se enfraquecem.
E onde entra o Brasil nessa história?
Talvez seja justamente aqui que a comparação deixe de ser uma disputa entre exemplos estrangeiros e passe a ter alguma utilidade. O Brasil não é Venezuela nem Argentina. Tem uma economia mais diversificada, um mercado interno amplo, agricultura competitiva, indústria relevante, sistema financeiro desenvolvido e instituições que, com todas as suas imperfeições, possuem mecanismos próprios de funcionamento.
Isso não significa que esteja imune aos problemas observados nos vizinhos. Uma economia pode perder estabilidade por diferentes combinações de fatores: desequilíbrios fiscais persistentes, inflação elevada, baixa produtividade, redução dos investimentos, dificuldades de financiamento ou menor previsibilidade institucional.
Da mesma maneira, o debate sobre responsabilidade fiscal e o debate sobre política social não precisam ser tratados como escolhas necessariamente excludentes. O desafio de qualquer governo é procurar compatibilizar sustentabilidade das contas públicas, proteção social e capacidade de investimento. O Estado precisa ter condições de proteger quem mais necessita, mas também precisa preservar os recursos que tornam essa proteção possível no futuro.
No fim das contas, talvez essa seja a principal lição que Venezuela e Argentina oferecem. Não há fórmula mágica, nem país-modelo, nem experiência estrangeira que possa ser simplesmente importada. Há, sim, sinais que merecem ser observados: a importância da estabilidade da moeda, da responsabilidade fiscal, da capacidade produtiva, do investimento, da proteção social e de instituições capazes de corrigir rumos.
Porque, para quem está do lado de fora dos grandes debates econômicos, a crise não aparece primeiro nos gráficos. Ela aparece no supermercado, no aluguel, na conta de luz, no salário que já não compra o que comprava, na aposentadoria que precisa durar até o fim do mês ou no emprego que deixou de existir.
Talvez seja por isso que a pergunta do leitor seja mais interessante do que parece. Não se trata de descobrir se o Brasil será como a Venezuela ou como a Argentina, nem de escolher um país como modelo ou advertência. Trata-se de observar experiências distintas, reconhecer seus resultados e seus custos e perguntar o que pode ser útil ao Brasil antes que ele precise tirar suas próprias conclusões pela experiência.
Palmarí H. de Lucena