O médico revisou exames, pigarreou como quem conversa com o ar rarefeito e declarou: Apto. O senhor pode viver e trabalhar em La Paz.
Àquela altitude — 3.660 metros — até a palavra “apto” parecia exigir fôlego.
A chegada foi um choque de beleza e vertigem: o Illimani pairava como um guardião glacial, enquanto nós, recém-chegados, lutávamos para respirar. Trabalharíamos na discreta Corneta Mamani, onde funcionava o programa de ajuda humanitária da Igreja Católica, dedicado às comunidades afetadas por El Niño. Ali travamos contato com um velho conhecido dos Andes: o soroche, o mal da altitude — uma mistura de dor de cabeça, náusea e cansaço que lembra ao corpo, sem gentilezas, que o ar é rarefeito e que toda adaptação à montanha exige humildade.
Entre crises políticas, inflação teimosa, pobreza estrutural e a presença constante desse mal andino, sobrevivemos um ano inteiro de altiplano e humanidade. Ao partir, abandonamos mais que o trabalho: deixamos os Andes dentro de nós, silenciosos e vigilantes como o próprio Illimani.
Décadas depois, o nome Mamani retornaria pela televisão. Era 2010, e o mundo acompanhava o drama dos 33 mineiros presos a 700 metros de profundidade na mina San José, no Deserto do Atacama. Após 17 dias de completo silêncio, uma broca voltou à superfície trazendo um pequeno bilhete que incendiou o planeta: Estamos bien en el refugio los 33.
O resgate mobilizou engenheiros chilenos, especialistas da NASA e equipes de vários países. Na madrugada de 14 de outubro, o quarto homem a emergir da cápsula Fénix foi Carlos Mamani, o único boliviano do grupo. Sua imagem, ainda coberta de poeira, reacendeu lembranças da rua onde havíamos trabalhado tantos anos antes.
Foi então que buscamos a história por trás do nome. Descobrimos que a Corneta Mamani homenageava Pascual Mamani, corneteiro aimará morto em 1879 durante a Guerra do Pacífico, conflito que arrancou da Bolívia sua saída para o mar e roubou aos povos do altiplano a esperança econômica que nunca mais se recuperou por completo.
Pascual lutou num morro de Antofagasta, gravemente ferido, tocando reforço sobre um canhão capturado. Carlos, mais de um século depois, lutou pela vida nas entranhas da terra. Entre ambos, a mesma geografia dura, a mesma pobreza, a mesma batalha silenciosa dos povos indígenas diante de forças maiores que eles — sejam exércitos, sejam empresas, sejam minas que engolem homens como se fossem extensão do deserto.
Assim, dois Mamanis — Pascual no campo de batalha, Carlos no fundo da mina — tornaram-se espelhos de uma mesma história. Povos que lutam, trabalham, resistem: sempre longe dos lucros, sempre perto do perigo.
E, no fim, compreendemos que o altiplano e o deserto falam a mesma língua:
uma língua de silêncios longos, de montanhas que guardam segredos,
de homens que descem à terra para sobreviver
e de outros que sobem dela para renascer.
Entre Illimani e Atacama,
entre cornetas de guerra e cápsulas de resgate,
os Mamanis continuam a tocar —
uns pedindo reforços, outros pedindo ar —
lembrando ao mundo que a bravura dos povos indígenas
ainda ecoa onde a história insiste em calar.
La Paz, Bolivia 1985 – 2010
Por Palmarí H. de Lucena